O carnaval chegou em bom momento (por Marcos Magalhães)
Entre temporais, golpe do Bolsonaro, ondas de calor e surtos de dengue e de covid, a alegria que se espalha pelo país nesses quatro dias
atualizado
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O carnaval chegou em bom momento. Entre temporais, ondas de calor e surtos de dengue e de covid, a alegria que se espalha pelo país nesses quatro dias dissipou parcialmente o denso nevoeiro de notícias sobre a tentativa de melar as eleições de 2022.
A divulgação de vídeos de uma reunião ocorrida no Palácio do Planalto em julho de 2022 indica que ali se tramava não apenas um golpe de Estado, para garantir a permanência no poder de Jair Bolsonaro, mas também uma radicalização da forma de fazer política.
O tom inicial foi do próprio presidente, ao procurar convencer seus principais assessores de que os verdadeiros cristãos não poderiam votar em partidos de esquerda, pois esses defendem pautas como o direito ao aborto e a proteção das relações entre homossexuais.
O discurso fundamentalista de Bolsonaro seria exaustivamente repetido por todo o país às vésperas das eleições, fazendo dele uma espécie de cruzado da causa neopentecostal, capaz de animar milhões de fiéis de norte a sul.
Dois generais escaparam do discurso ideológico para demonstrar seus conhecimentos de táticas de enfrentamento de forças dentro do próprio país.
O então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Oliveira, explicou na reunião do Planalto a atuação das Forças Armadas na Comissão de Transparência das Eleições, criada em 2021 pelo Tribunal Superior Eleitoral, e se referiu aos integrantes do grupo como oponentes.
“O que eu sigo nesse momento é apenas na linha de contato com o inimigo”, disse Oliveira. “Vou falar e muito claro: a comissão é para inglês ver”.
Outro general – Augusto Heleno, então ministro do Gabinete de Segurança Institucional – aproveitou o momento para deixar uma mensagem ainda mais direta. Segundo o general, aquela era a hora de agir contra as eleições, pois mais tarde não seria possível alterar os resultados.
“Não vai ter segunda chamada na eleição, não vai ter revisão do VAR”, afirmou o general, valendo-se de uma expressão popularizada no futebol. “Se tiver que virar a mesa, é antes das eleições”, concluiu.
Então estamos assim. Um general, ministro da Defesa, se refere a integrantes do Poder Judiciário como “inimigos”. Não apenas adversários, o que já seria estranho, mas inimigos.
Outro general, ministro da Segurança Institucional, fala abertamente de infiltrar agentes do Estado em campanhas eleitorais e alerta para a necessidade de se agir rapidamente para “virar a mesa”.
O próprio Bolsonaro buscava apoio interno nas Forças Armadas para essa “virada de mesa”, enquanto procurava alimentar junto ao eleitorado evangélico o temor de um apocalipse moral no caso de vitória de Luís Inácio Lula da Silva.
Os diálogos agora conhecidos das reuniões do Palácio do Planalto mostram que não se tramava apenas um golpe de Estado para garantir a manutenção de Bolsonaro na Presidência da República.
Pode-se reconhecer pelos diálogos entre os ministros e o presidente a semente de adoção de uma linguagem política ainda mais dura do que a que marcou os últimos anos do regime militar.
É uma linguagem de puro enfrentamento, de incitação ao ódio aos que os então donos do poder chamavam de inimigos e de construção de um mito quase religioso em torno da imagem de Jair Bolsonaro.
Tudo isso vai ter que ser investigado a fundo a partir da Quarta-Feira de Cinzas. Talvez pela primeira vez na história militares na ativa terão de responder por participação em iniciativas golpistas. E a efetiva punição dessas aventuras poderá desestimular iniciativas semelhantes no futuro próximo.
Enquanto a quarta-feira não vem, porém, o Brasil pode se dedicar ao que gosta, nas ruas, nos blocos, nos bailes. Sem reflexo das sombras que se movimentavam do Palácio do Planalto. O país que espalha ao mundo imagens de alegria no carnaval precisa reinventar a sua forma de fazer política.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.


