O calor que mudou o nosso vocabulário (por Mariana Caminha)
Ultimamente tenho escolhido o Sebinho, a famosa livraria de livros usados de Brasília, para escrever esta coluna.
atualizado
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Nos meus tempos de Universidade de Brasília, onde cursei Letras, o Sebinho fazia parte da minha vida cotidiana. Eu passava por ele praticamente todos os dias. Às vezes entrava para procurar algum livro; outras, simplesmente para tomar um café ali perto e observar o movimento.
Naquele tempo, há quase 30 anos, o clima era outro. Não digo isso apenas no sentido figurado. O clima era realmente outro.
Lembro de dias quentes, claro. Brasília sempre soube o que é calor (principalmente em julho e agosto). Mas o calor era apenas calor. Algo que resolvíamos com uma sombra, um copo d’água ou um ventilador improvisado.
Hoje, o calor ganhou sobrenomes. É que não se trata apenas da “quentura”, como dizemos em Fortaleza. É sensação térmica de 42 graus. É onda de calor. É cúpula de calor. É ilha de calor urbana.
De repente, nosso vocabulário meteorológico ficou técnico.
Acompanhamos aplicativos do tempo como se fossem boletins médicos. “Hoje a sensação térmica vai chegar a 45”, dizemos. Daí pode-se ouvir: “É por causa da umidade”. É… “dizem que é a terceira onda de calor do ano”.
Interessante. Antigamente ninguém falava assim, ou falava?
Esse fenômeno não surpreende os linguistas. A língua, como aprendi nas Letras, muda quando o mundo muda. Novas experiências exigem novas palavras. Às vezes surgem neologismos. Outras vezes, palavras antigas ganham sentidos novos.
O clima parece estar fazendo exatamente isso com o nosso vocabulário cotidiano. Fico imaginando se o mesmo acontece em outras línguas. Acredito que sim.
A verdade é que hoje falamos como meteorologistas amadores. Foi-se o tempo em que o calor era descrito de maneira quase poética: “calor de fritar ovo na calçada”, “calor de não aguentar”, “calor de derreter o asfalto”.
De forma menos lírica, o clima entrou definitivamente na conversa cotidiana, e pela linguagem. E sabemos que quando palavras saem dos relatórios e entram nas conversas de elevador, é porque alguma coisa mudou de verdade.
George Orwell escreveu que a linguagem e o pensamento se influenciam mutuamente. Algo parecido talvez esteja acontecendo com o clima.
Sentada aqui no Sebinho, cercada de livros de todo tipo, fico pensando que certas mudanças, silenciosas, aparecem primeiro nas palavras.
E só depois percebemos que o mundo inteiro já mudou junto com elas.


