O calor do Pacífico – e o que ainda podemos evitar (por Mariana Caminha)

Entre o negacionismo e o alarmismo, existe um espaço mais importante – o da ação.

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1 de 1 Imagem colorida do Oceano Pacífico - Metrópoles - Foto: Ivan/Getty Images

A National Oceanic and Atmospheric Administration anunciou, no mês passado, o fim de um padrão de La Niña e indicou a formação de um El Niño até meados do verão no hemisfério norte. Desde então, a possibilidade de um evento forte passou a ocupar o centro das projeções – com direito a apelidos pouco científicos, mas altamente eficazes em chamar atenção, como “El Niño Godzilla”.

Trata-se, verdade seja dita, de uma das engrenagens mais poderosas do sistema climático da Terra: o El Niño-Oscilação Sul. Um ciclo responsável por reorganizar padrões de chuva, alterar temperaturas e deslocar extremos climáticos ao redor do planeta.

Quanto mais intenso o evento, mais persistentes e abrangentes tendem a ser seus efeitos. E eles não ficam restritos a mapas meteorológicos. El Niño é, também, uma história humana. Ele já esteve associado a secas severas, à propagação de doenças infecciosas, ao agravamento da insegurança alimentar e hídrica e até a disrupções no comércio global.

Os cientistas estão especialmente atentos ao que pode vir agora. Não apenas pelo fenômeno em si, mas pelo contexto em que ele ocorre. O calor armazenado no Pacífico, ao ser liberado, pode impulsionar ainda mais as temperaturas globais, que já operam em níveis historicamente elevados devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana. O último El Niño ajudou a consolidar 2024 como o ano mais quente já registrado. E os modelos indicam que um novo evento pode produzir um efeito semelhante – ou até mais intenso – até o fim desta década.

Os dados mais recentes da NOAA indicam cerca de 80% de probabilidade de formação de El Niño entre julho e agosto de 2026, podendo chegar a até 90% no segundo semestre. O fenômeno pode persistir até o fim do ano e influenciar 2027. Mas isso não é uma sentença, é importante lembrar.

No Brasil, os padrões associados ao El Niño são conhecidos. Mais chuvas no Sul, mais secas na Amazônia e no Nordeste, temperaturas elevadas. Mas mesmo esses padrões não se traduzem automaticamente em desastre.

Como lembrou o climatologista José Marengo, em análise publicada no blog de Carlos Nobre, o El Niño não determina eventos específicos. Ele altera probabilidades. O que acontece no território depende também de fatores sociais: onde as pessoas vivem, quão vulneráveis estão, quão preparadas estão as cidades.

É aí que a conversa deixa de ser sobre clima e passa a ser sobre escolha. Porque, se o risco já é conhecido, a inação também passa a ser uma decisão.

Eventos climáticos extremos não se transformam em tragédias apenas pela intensidade da chuva ou da seca, mas pela ausência de prevenção. Sistemas de drenagem insuficientes, ocupação desordenada, falta de planejamento urbano, ausência de sistemas de alerta. Tudo isso amplia o impacto de um evento que, em muitos casos, já estava no radar.

E aqui entra uma dimensão que ainda tratamos como secundária, quando deveria ser central: investimento.

Investir em adaptação climática não é antecipar um problema hipotético. É reduzir perdas certas. Infraestrutura resiliente, contenção de encostas, gestão hídrica, sistemas de alerta precoce, planejamento territorial – tudo isso já é conhecido, testado e, sobretudo, mais barato do que reconstruir depois. Ainda assim, seguimos operando no modo reativo, respondendo ao desastre quando ele já aconteceu.

No contexto de um possível El Niño, essa lógica precisa ser invertida.

Se há maior probabilidade de chuvas intensas no Sul, é ali que a infraestrutura precisa ser reforçada. Se há risco de seca no Norte e Nordeste, é ali que a segurança hídrica precisa ser priorizada. Se sabemos que extremos climáticos tendem a se intensificar, então a pergunta não é se devemos investir, mas por que ainda investimos tão pouco, e tão tarde.

Termos como “El Niño Godzilla” circulam com facilidade nas redes sociais. Não têm base científica, como lembra Marengo, mas têm apelo. Criam urgência, mas também distorcem a realidade. Alimentam um tipo de ansiedade que paralisa, em vez de mobilizar.

Entre o negacionismo e o alarmismo, existe um espaço mais importante – o da ação.

Estamos diante de mais um teste da nossa capacidade de ler o risco com precisão e agir com inteligência. Já estamos cansados de saber que, no fim, o que transforma um evento climático em desastre não é apenas o que acontece na atmosfera. É o que deixamos, ou não, preparado aqui embaixo.

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