O Brasil só começa depois do Carnaval? (por Roberto Caminha Filho)
E ninguém diz que “a França só começa depois do Tour de France”
atualizado
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Desde que estudava no Grupo Escolar Princesa Izabel, que escuto essa velha conversa fiada: passa o Réveillon, chega janeiro, vem o Carnaval e alguém decreta com voz solene: “Agora o Brasil começa a trabalhar.”
Como se os 250 milhões de brasileiros, daqui e do mundo tivessem passado sessenta dias em modo satélite, vivendo de brisa e confete reciclado.
Vamos com muita calma e com dados. O Brasil tem, em média, 252 dias úteis por ano, número parecido com vários países da OCDE. A Alemanha, por exemplo, trabalha algo próximo disso e ainda tem férias generosas. A França também não é exatamente um mosteiro de disciplina. E ninguém diz que “a França só começa depois do Tour de France”.
Então por que repetimos essa frase como mantra momesco? Porque confundimos calendário com produtividade.
Enquanto parte dos “Brazukas” ainda publica foto atrasada do bloco no Instagram, o agronegócio já embarcou soja, aço, café, tambaquis e mangas para a China, a indústria já rodou turno noturno e o comércio de material escolar já faturou o equivalente a três carnavais e saiu melhor que todos os mestres-salas e porta-bandeiras.
E tem um detalhe curioso: a Receita do governo nunca entra em recesso tributário e já fez seu ensaio geral para dar comidinha ao seu Leão.
O IPVA vence em janeiro. O IPTU também. A matrícula escolar chega antes da serpentina. Cartão de crédito nunca respeitou quarta-feira de cinzas. A carga tributária brasileira gira em torno de 33% do PIB — e o faminto leãozinho não usa fantasia. A nova jornada, essa dos 5 dias de baixa produtividade e muitas carimbadas, aumentará o Custo Brasil, o desemprego aumentará e o Bolsa Amigo crescerá. Fácil de imaginar.
Se o Bras “não trabalhou” em janeiro, quem pagou tudo isso? Só os Pastores Valdomiro e o Malafaia podem explicar.
Talvez o problema não seja a suposta preguiça brasileira, mas a nossa baixa produtividade. Produzimos menos por hora trabalhada do que países desenvolvidos. Isso não se resolve tirando o Carnaval do calendário, mas aumentando eficiência, simplificando impostos e esganando a burocracia.
Aliás, há setores que trabalham dobrado no verão. O turismo movimenta bilhões no período. Hotéis, bares, companhias aéreas e aplicativos de transporte vivem o auge. O Carnaval, sozinho, movimenta cifras bilionárias na economia brasileira. Isso não é férias coletivas. É atividade econômica hiperconcentrada.
O que existe, sim, é um fenômeno cultural: o Brasil oficial — Congresso, Judiciário, grandes decisões políticas — parece ganhar tração depois da folia. Aí nasce a sensação de que “o país começou”.
Mas cuidado com a ilusão. O déficit público começa em 1º de janeiro. A dívida pública não espera o último bloco passar. Os juros não entram em recesso. Os “jurinhos” gemem do cartão e rasgam os nossos bolsos.
Enquanto a avenida vibra, o Banco Central sorri calibrando taxa básica. Enquanto o trio elétrico passa, o Tesouro calcula quanto precisa emitir em títulos. Economia não tem botão de pausa.
Talvez a frase “o ano começa depois do Carnaval” seja apenas uma forma simpática de admitir que o brasileiro gosta de ritualizar o começo das coisas. Precisamos de um marco simbólico para virar a página.
Mas há uma diferença entre símbolo e realidade. Realidade é produtividade. Realidade é ambiente de negócios. Realidade é reforma administrativa parada. Realidade é sistema tributário complexo.
Se quisermos que o Brasil realmente “comece” diferente em 2026, não será na quarta-feira de cinzas. Será no dia em que aceitarmos que trabalhar mais não significa apenas trabalhar horas — significa trabalhar melhor.
E aqui vai uma provocação final. O brasileiro não para de trabalhar. Quem para é a eficiência do Estado. Quem tropeça é a máquina pública lenta. Quem pesa é o custo Brasil — aquela soma invisível de burocracia, insegurança jurídica e impostos complicados.
O Carnaval é festa muito bem paga. E festa é uma parte muito querida da nossa fantástica e bem alegre forma de se vender ao mundo da economia. O problema não é o confete colorido. É o excesso do exigido papel carimbado.
Portanto, da próxima vez que alguém disser que “agora o Brasil começa a trabalhar”, responda com uma alegre serenidade fiscal:
— Meu amigo, o “Bras” nunca parou. Só está tentando produzir apesar de Brasília. E se quisermos um país que cresça mais que desfile de escola campeã, talvez devamos começar a trabalhar menos na fantasia e mais na reforma.
Porque diferente da bateria da avenida, a nossa economia não vive como os brincantes da Acadêmicos de Niterói — vive de bons resultados.
Roberto Caminha Filho, economista, crê no Brasil Pós-Maduro.


