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O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo (por Roberto Caminha Filho)

O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição

19/10/2026 09:05, atualizado 19/10/2026 09:11
Imagens cedidas pela TV Band
O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo (por Roberto Caminha Filho)

Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.

Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.

Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.

O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.

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Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?

Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!

No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.

Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.

Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.

Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!

O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.

O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.

Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.