O Brasil no perrengue climático (por Felipe Sampaio)

Transição energética moderniza a indústria e gera crescimento superior aos negócios e políticas tradicionais

atualizado

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Reprodução chelsea/ Unsplash
Fotografia colorida de um telão de energia | Energy Summit
1 de 1 Fotografia colorida de um telão de energia | Energy Summit - Foto: Reprodução chelsea/ Unsplash

No ano passado o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, veio ao Brasil como conferencista do Expert XP 2025 em São Paulo e para a COP30 da Amazônia. Estava otimista. Profetizou que a Terra da Santa Cruz será protagonista da descarbonização e da transição energética nas tratativas internacionais do desenvolvimento sustentável. O vice de Bill Clinton tem prêmio Nobel no assunto. Há 20 anos produziu “Uma Verdade Inconveniente” (um provocativo documentário sobre o armagedon climático). Mas, a empolgação do ex-vice ianque com o estrelato ambiental brasileiro tem um limitante na realidade climática atual. Só dará certo se a humanidade conseguir segurar as rédeas da transformação climática galopante em um patamar de até 1,5°C acima da temperatura global pré-industrial.

É o que mostra o Estudo Estratégico dos Impactos Econômicos da Mudança do Clima no Brasil, produzido pelo Ministério do Planejamento com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A publicação subsidia a Estratégia Brasil 2050 e aponta que a tendência de elevação da temperatura do planeta pode ser proveitosa para desenvolvimento brasileiro, desde que não ultrapasse o ponto crítico de 1,5° C (e que o Brasil faça seu dever de casa). Dentro desse limite, ainda é possível falar em benefícios da “ação climática” (aqueles gastos feitos para suportar uma transição climática até 1,5°C). “Não é um custo, é um investimento que moderniza a indústria e gera crescimento superior aos negócios e políticas tradicionais”. Até aí, estamos falando de geração de empregos, formação bruta de capital, aumento de produtividade e redução de desigualdades.

Porém, o otimismo de Al Gore perde força se (ou quando) o aquecimento do planeta avançar para 2,5°C, porque a elasticidade climática ultrapassaria vários “pontos de não-retorno”, desencadeando reações caóticas (imprevisíveis e irreversíveis). A partir desse nível, as providências deixam de acompanhar a dimensão dos desastres e das transformações, que saem de controle mesmo que o aquecimento global seja interrompido.

Pior ainda para o Brasil se uma hipótese de elevação de 4°C até o ano 2100 se concretizar. O Estudo estima, nesse caso, uma queda de R$17,1 trilhões no PIB, com perda de 4,4 milhões de postos de trabalho, redução de até 30% na produtividade do agro, aprofundamento das desigualdades sociais e regionais (com efeitos graves para o Norte, Nordeste e Centro-Oeste), sem falar na disparada de preços de alimentos e dos custos de acesso à água. Os setores mais vulneráveis a eventos extremos nessa escala seriam a agricultura, infraestrutura, energia, transportes e telecomunicações. Vamos combinar que todo esse prejuízo só ocorrerá se a humanidade ainda existir.

Al Gore aproveitou a visita para alertar os empresários para a urgência de envolver o andar superior do PIB nas providências das inevitáveis adaptações climáticas. Precisarão tirar a ratoeira do bolso e gastar grana no processo. Por outro lado, lembrou às autoridades que a escala do desafio exige a liderança (e o orçamento) do Estado. No mais, a mudança climática é um problema planetário e deve ser enfrentada por todos os países. De preferência, em torno de um sistema multilateral fortalecido.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife, é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa.

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