O Brasil em um mundo em transição (Por Hubert Alquéres)

Entre riquezas estratégicas e divisões internas, país segue sem projeto para a nova ordem global

atualizado

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Ao longo do século XX os Estados Unidos foram o principal parceiro do Brasil, do ponto de vista comercial e geopolítico. Essa relação se acentuou após a II Guerra Mundial, da qual os EUA saíram como a principal potência econômica e militar do planeta. Nossas relações, apesar da assimetria de poder entre as duas nações, foi por décadas funcional: o Brasil buscava desenvolvimento econômico, segurança e inserção internacional; os EUA queriam estabilidade política e aliados firmes.

Esse ciclo se intensificou nos anos 1990, com a globalização e a abertura econômica. Com o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, o mundo, ao final do século XX, parecia marchar para um ordenamento unipolar. Entretanto, as placas tectônicas se moviam. Nos anos 80 a China iniciava seu programa de modernização, abrindo sua economia para o capital estrangeiro. Surgia ali uma espécie de capitalismo de Estado combinado com a ditadura do partido único.

Foi justamente no início do século XXI que uma inflexão silenciosa começou a ganhar corpo, preparando o terreno para uma mudança decisiva no eixo das nossas relações externas e para a quebra da unipolaridade da ordem mundial.

Ela ocorreu em 2009, quando a China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior parceiro comercial do Brasil — posição que mantém até hoje com larga vantagem. O fenômeno se deve, em grande parte, à complementaridade entre as duas economias: enquanto o Brasil exporta commodities como minério de ferro, soja, petróleo e carne, a China fornece produtos industrializados e tecnologia de médio custo. Ironia da história: o status do Brasil como exportador de bens primários de pouco valor agregado e importador de bens industriais produzidos por países capitalistas era considerado, pela esquerda brasileira, como resultado de uma relação semicolonial. Antes era com os Estados Unidos. Agora com a China.

A explosão da demanda chinesa por matérias-primas, impulsionada por sua urbanização acelerada e crescimento industrial, coincidiu com a retração dos mercados ocidentais após a crise de 2008. A isso somou-se uma aproximação diplomática e uma onda de investimentos chineses em infraestrutura, energia e agronegócio. O resultado foi um realinhamento estrutural do comércio exterior brasileiro — com impactos que vão além do plano econômico e alcançam a geopolítica.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras vão para a China — uma participação muito superior à dos EUA ou da União Europeia. Os Estados Unidos, contudo, são os principais investidores externos em nosso país e representam o principal mercado para nossas exportações industriais.

É nesse novo cenário global que se inscreve o abalo provocado por Donald Trump na confiança nas instituições multilaterais, no comércio global como vetor de prosperidade e no papel moderador dos Estados Unidos. A ascensão de Trump e sua agenda de isolamento, protecionismo e desprezo pela ordem internacional corroeram os alicerces do sistema construído no pós-guerra — um sistema do qual os EUA foram arquitetos e principais fiadores.

O que se anuncia é uma ordem mais fragmentada, mais instável e, talvez, menos democrática e menos liberal. Potências como China e Índia avançam com projetos próprios de influência. A primeira aderiu decididamente à economia de mercado e ao multilateralismo nas últimas décadas. Arranjos alternativos, como os BRICS, ampliam-se. O Indo-Pacífico, o Oriente Médio e a Eurásia se tornam eixos de redefinição de poder.

Embora a América do Sul não esteja no centro das novas disputas geopolíticas, o Brasil pode e deve assumir um papel de liderança regional e impulsionar uma agenda de cooperação em segurança alimentar, transição energética e infraestrutura estratégica, fortalecendo a região como um polo de estabilidade.

O Brasil também possui ativos concretos que o habilitam a exercer um papel de maior protagonismo na nova ordem mundial. O potencial é enorme: o país reúne escala territorial, população expressiva, diversidade energética e uma agricultura de peso global. Detém a maior reserva de água doce do mundo, uma matriz energética com 50% de fontes renováveis (contra 15% da média global), imensas reservas de minerais estratégicos — como nióbio, lítio, terras raras — e uma biodiversidade única em valor e escala. Seu agronegócio alimenta centenas de milhões de pessoas e já domina cadeias globais. Apesar de entraves conhecidos, é a maior democracia do Sul Global, com estabilidade institucional, infraestrutura relevante e presença em fóruns multilaterais.

É essa combinação de recursos e institucionalidade que desperta o interesse das grandes potências. Mas interesses externos, por si só, não se traduzem em ganhos nacionais. É preciso capacidade estratégica para transformar potencial em influência real. Isso exige um projeto de país que tenha objetivos claros, articulação, previsibilidade de longo prazo, inserção internacional e diálogo com setores produtivos, científicos e diplomáticos. Sem coordenação interna e metas nacionais bem definidas, o Brasil seguirá como fornecedor de recursos brutos, sem protagonismo nas decisões globais.

A China busca acesso a commodities e mercados; a União Europeia, à liderança ambiental; os Estados Unidos, à segurança estratégica no Atlântico Sul. O Brasil precisa dialogar com todos, mas com clareza de objetivos e defesa assertiva de seus interesses.

Temos desafios gigantescos que poderão inviabilizar nossa inserção, de forma competitiva, na nova ordem mundial. Nossa economia é uma das mais fechadas do mundo, uma herança perversa do modelo de “substituição das importações”. Fizemos o caminho oposto do da Coreia do Sul que em menos de cinquenta anos deu um salto gigantesco ao integrar-se à economia mundial. No nosso caso, barreiras alfandegárias e subsídios premiam uma indústria acostumada ao protecionismo, sem competitividade para se integrar nas cadeias produtivas globais. A não ser em raras exceções, como a Embraer. Esse modelo gerou uma cultura empresarial avessa à competição internacional, pouco inovadora e dependente do Estado. Reformar esse padrão exige um esforço coordenado de abertura gradual com investimento em produtividade, digitalização e acordos comerciais de nova geração. E muito foco na educação de nossos jovens.

Em vez de uma comunhão de destino, temos um país dividido ao meio e polarizado por duas forças antagônicas que não têm um projeto de nação e se retroalimentam. O centro, que poderia ser a força balizadora e dar um rumo na direção da coesão nacional – como o foi na transição democrática e na estabilização da economia – simplesmente desapareceu.

O governo Lula, a quem compete dar direção ao país, mostra-se prisioneiro de concepções anacrônicas e de uma retórica ideológica datada, como o antiamericanismo pueril. Falta-lhe capacidade de atualizar sua visão de mundo à luz das transformações tecnológicas, ambientais e geopolíticas em curso. É um governo pautado pela cultura do rechaço, movido por ideias passadistas. Não está à altura dos novos desafios e não entende as profundas mudanças que ocorrem ou as novas relações sociais de produção.

Este é o nosso dilema: temos potencial para ser uma potência expressiva no cenário internacional, mas nos perdemos em meio à divisões e falsas soluções. O Brasil precisa romper o ciclo do “futuro que nunca chega”. Para isso, exige-se visão de país, pacto interno e vontade de agir com coragem estratégica no cenário internacional. Precisa reaprender a pensar como Estado, não apenas como governo. Nesse campo o tempo não joga a nosso favor.

 

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação

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