O Brasil e a geopolítica mineral dos EUA (por Felipe Sampaio)

Lula foi a segunda pessoa mais elogiada no discurso do Trump. A primeira, naturalmente, foi o próprio discursista.

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1 de 1 Imagem colorida mostra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Metrópoles - Foto: Michael M. Santiago/Getty Images

Em tempos de tarifaço a esmo, o flerte do presidente estadunidense em direção ao mandatário da Terra da Santa Cruz no púlpito da ONU não deixa de ser um alento. Afinal, o Presidente Lula foi a segunda pessoa mais elogiada no discurso do americano. A primeira, naturalmente, foi o próprio discursista.

No melhor estilo morde-sopra, Trump mordeu a ONU, Biden e o resto do mundo, mas só soprou a si mesmo… e ao presidente brasileiro (que não escapou de dentadas consideráveis, antes e depois do afago). A delegação brasileira fez bem em comemorar com parcimônia a rasgação de seda recebida, porque tem plena consciência de que Donald Trump não tem nada de “Aprendiz”.

Entre tantas carícias no seu narciso, beirando o êxtase ao vivo e a cores, Trump não fez um discurso errático ou caótico, como pode parecer ao observador ligeiro. Afinal, qualquer brasileiro que leu as crônicas de Arnaldo Jabor sabe que “ninguém se masturba por amor”, conforme seu artigo que inspirou a música “Amor e Sexo” de Rita Lee.

Trump foi literalmente curto e grosso ao destacar nas entrelinhas que vai fazer de tudo para defender os setores estratégicos para a economia ianque: Defesa, Energia e Big Techs. Falou em forças armadas, bombas poderosas, armamento nuclear e empresas de interesse nacional. Dito de outra forma, foi direto ao colocar os ouvintes contra a parede, deixando claro que não poupará caneta, nem saliva (tampouco munição) para conquistar os recursos e riquezas que lhe pareçam vitais.

Nesse cenário, o Brasil está em uma posição crítica – para o bem ou para o mal. Tudo vai depender do desenrolar das possíveis negociações nos próximos dias. Ou seja, vai depender do que for colocado na mesa de diálogo pelos brasileiros e pelo Tio Sam. Levando-se em conta a convicção de Trump de que o caminho para Make America Great Again passa pelo Pentágono e pelo Vale do Silício, o Brasil tem a oportunidade de jogar com suas reservas abundantes de minerais críticos e estratégicos.

Esses materiais de uso especial são indispensáveis para a produção de equipamentos de uso militar, desde drones até mísseis e submarinos, incluindo-se aí a produção de componentes eletrônicos, armas inteligentes, lasers e alguns elementos da estrutura de veículos e radares, por exemplo.

Da mesma forma, na indústria da tecnologia e informação, os minerais críticos são essenciais na construção de computadores de última geração, ainda mais com os avanços da Inteligência Artificial e a evolução dos computadores quânticos, Sem falar nos novos data centers colossais, satélites, radares, antenas, e outros itens da nova era.

Tudo isso dependerá ainda de incrementos exponenciais nas capacidades de fornecimento de energia, principalmente de fontes renováveis, como torres eólicas e painéis solares, cuja produção e funcionamento incluem também os minerais críticos de que o Brasil dispõe em quantidade significativa. Com a aceleração da desglobalização em andamento, promovida em boa parte pelos Estados Unidos, novas fontes de energia independentes serão fundamentais para a preservação das soberanias nacionais nos quatro cantos da Terra. Nossa mineração poderá se beneficiar da concorrência internacional por nossos estoques minerais, a começar pelas negociações que se apresentam com os EUA.

Se Rita Lee e Arnaldo Jabor estiverem certos, será possível administrarmos nossos afetos e prazeres na relação com os americanos, conseguindo alguma revisão das tarifas de 50% e da lista de setores penalizados, quem sabe, ganhando de quebra o bom acordo comercial para os minerais críticos.

 

Felipe Sampaio: Foi empreendedor em mineração; atuou em grandes empresas, no terceiro setor e organismos internacionais; cofundador do Centro Soberania e Clima; dirigiu o sistema de dados e estatísticas do Ministério da Justiça; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife.

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