O bolso do eleitor e os limites do populismo econômico (por Gaudêncio Torquato)
Em ano eleitoral, governos tendem a ampliar programas sociais com o objetivo de fortalecer sua base de apoio
atualizado
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Em ano eleitoral, governos tendem a ampliar programas sociais com o objetivo de fortalecer sua base de apoio e melhorar a avaliação popular. Trata-se de prática recorrente nas democracias, sobretudo naquelas em que o voto é fortemente influenciado pelas condições materiais de vida. No Brasil, essa lógica se manifesta com nitidez: ampliação de benefícios, renegociação de dívidas e concessão de subsídios tornam-se instrumentos estratégicos de comunicação política e tentativa de reconexão com o eleitorado. O atual governo não foge à regra. Programas como o Desenrola, o Pé-de-Meia, a ampliação do Bolsa Família e os subsídios ao gás de cozinha compõem um robusto pacote social que alcança cerca de 95 milhões de brasileiros. Em tese, um contingente dessa magnitude deveria se traduzir em ganhos expressivos de popularidade. No entanto, o fenômeno observado aponta em direção oposta.
A combinação de juros elevados, inflação persistente e perda do poder de compra tem imposto um fardo crescente sobre a população brasileira, neutralizando, em grande medida, os efeitos positivos dessas políticas. A política monetária restritiva, com taxas de juros em patamares elevados, embora justificada como instrumento de combate à inflação, produz efeitos colaterais amplos: o crédito se torna mais caro, o consumo desacelera e o investimento produtivo perde fôlego. Para o cidadão comum, isso se traduz em parcelas mais pesadas, dificuldade de financiamento e menor circulação de renda. Ao mesmo tempo, a inflação, especialmente no segmento de alimentos, corrói silenciosamente o orçamento doméstico. Produtos básicos acumulam aumentos sucessivos, obrigando milhões a rever hábitos e reduzir padrões de consumo. A sensação de empobrecimento é imediata e tangível.
Esse quadro se agrava com o avanço do endividamento. Grande parte das famílias brasileiras já compromete parcela significativa de sua renda com dívidas, muitas contraídas em condições desfavoráveis. A inadimplência cresce, refletindo não apenas a dificuldade de pagamento, mas a fragilidade estrutural da renda. Nesse contexto, programas de renegociação oferecem alívio momentâneo, mas não solucionam o problema de fundo. A sensação de sufocamento financeiro persiste, limitando o impacto político das iniciativas governamentais.
Some-se a isso o desgaste de marca do grupo político no poder. Após anos de protagonismo, instala-se uma espécie de fadiga simbólica. O eleitor, hoje mais exposto à informação e mais crítico, relativiza promessas e ações que, em outros momentos, teriam maior capacidade de mobilização. Programas sociais deixam de ser percebidos como novidade e passam a integrar o repertório esperado do Estado. Paralelamente, o cenário internacional adiciona pressão ao ambiente doméstico. Tensões geopolíticas elevam o preço do petróleo, impactando combustíveis, transporte e logística. O efeito cascata chega rapidamente ao consumidor, que, ao sentir o aumento generalizado dos preços, atribui responsabilidade ao governo de turno.
A pergunta que se impõe é porque políticas sociais de grande alcance não produzem o retorno político esperado. A resposta está na equação elementar que rege o comportamento eleitoral: bolso, barriga e expectativa. Quando o custo de vida sobe, a renda encolhe e o futuro se torna incerto, benefícios pontuais perdem força diante da experiência concreta do cotidiano. O eleitor julga com base no que sente, não apenas no que recebe. A transferência de renda continua relevante, mas já não garante fidelidade automática.
Observa-se, portanto, uma mudança no perfil do eleitor brasileiro. Se, no passado, predominava uma resposta mais emocional e imediata aos estímulos governamentais, hoje emerge um eleitor mais desconfiado, mais informado e, em certa medida, mais racional. A equação do voto tornou-se mais complexa, envolvendo não apenas benefícios diretos, mas também percepção de estabilidade, confiança e expectativas de futuro.
O quadro revela uma lição central para a política contemporânea: abrir os cofres do Tesouro pode não ser suficiente para conquistar a opinião pública. Programas sociais permanecem essenciais como instrumentos de política pública, mas seu efeito eleitoral deixou de ser automático. Entre a ação governamental e o voto, há um espaço cada vez maior ocupado pela percepção crítica da realidade.
Em política, a economia continua sendo o termômetro mais sensível. E, neste momento, ele indica febre alta — uma febre que o gasto público não consegue esconder nem o discurso consegue curar.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político


