O auê e o ó-i-ó-ai (Por Miguel Esteves Cardoso)

Em Portugal, o ciúme não é para rir e, muito menos, para dançar. Mas “Desculpe o auê” arranca a dançar. Será deslumbramento? Será cio?

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Mulher com ciúmes
1 de 1 Mulher com ciúmes - Foto: Reprodução/ Freepik

Desculpe o auê já é uma canção quarentona, mas é sempre bom ser surpreendido por ela. Uma vez ouvida, mesmo uma fracção, mesmo sendo ao longe, faz o favor de nos acompanhar e chagar a cabeça durante uma semana – no mínimo.

Uma das grandes vantagens de ter brasileiros a viver em Portugal é poder aprender português com eles: a língua brasileira é a língua portuguesa quando os pais e os professores e os outros censores não estão a ver.

Foi fácil perguntar a vários brasileiros o que vem a ser um “auê”. É um escarcéu, uma birra, uma cena dramática, uma peixeirada, uma reacção desmesurada. Desculpe o auê, escrito, tocado e cantado por um casal apaixonado – Rita Lee e Roberto Carvalho – é um pedido de desculpa por uma cena de ciúmes.

Imagine-se o fado equivalente. Não se consegue. Entre nós, o ciúme é uma condição – não é uma coisa que acontece. Entre nós, o ciúme não é o perfume do amor. É o fedor. É o fedor que se aguenta corajosamente, da lixeira que arde no interior de qualquer apaixonado, incapaz de se libertar desse terrível desperdício que é amar.

Em Portugal, o ciúme não é para rir e, muito menos, para dançar. Mas Desculpe o auê arranca a dançar. Leva portugueses como eu a procurar o significado de “auê”. Será deslumbramento? Será cio? Será jogo?

Se um português quisesse pedir desculpa por uma cena de ciúmes, começaria por passar uma hora a confessar-se. Seria um milagre se não houvesse lágrimas.

Uma coisa é certa: o auê não serviria de prelúdio para o baile. O ciúme não faria parte da sedução, e da alegria da sedução. Com Rita Lee, o ciúme e o auê resultante mostram um fogo que pode servir já para incendiar sexualmente os sentidos.

O prazer não anda longe do auê: aquela energia toda pode aproveitar-se de uma maneira muito mais agradável. Como todas as palavras portuguesas com três vogais – pouquíssimas, infelizmente – até pode ser mal interpretada. No bom sentido, claro: como onomatopeia.

Eia! Eia! Ui! Ôia, aiê, aiú!

(Transcrito do PÚBLICO)

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