O adversário ideal (por Hubert Alquéres)

A política brasileira retorna ao eixo binário que organiza identidades, emoções e estratégias eleitorais: de um lado, Lula; de outro, o bolsonarismo.

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Lula e Flávio Bolsonaro -- Metrópoles
1 de 1 Lula e Flávio Bolsonaro -- Metrópoles - Foto: Arte/Metrópoles

Diz-se que Lula voltou a ser contemplado pela fortuna com a candidatura de Flávio Bolsonaro. É o tipo de adversário ideal para um incumbente que busca o quarto mandato. O filho herda a rejeição do pai sem carregar o mesmo carisma; sem o sobrenome, seria um andor difícil de sustentar. Se já seria conveniente enfrentar uma chapa que ostentasse o nome Bolsonaro, ainda que na vice, o cenário tornou-se mais favorável com um Bolsonaro na cabeça da disputa.

A candidatura restabelece a polarização que marcou as duas últimas eleições presidenciais e bloqueia, ao menos temporariamente, a possibilidade da oposição ser liderada por um nome de perfil mais moderado, como desejam os partidos de centro-direita. A política brasileira retorna ao eixo binário que organiza identidades, emoções e estratégias eleitorais: de um lado, Lula; de outro, o bolsonarismo.

A pesquisa Quaest divulgada na semana passada, ao apresentar Flávio Bolsonaro como o oposicionista mais bem posicionado, produziu um efeito desorganizador no campo oposicionista. A principal vítima foi o governador paulista Tarcísio de Freitas, que apareceu com índices bem inferiores aos do primogênito de Bolsonaro. Já o beneficiário aparece com clareza na declaração do pastor Malafaia: “Estão querendo entregar a eleição para Lula, só isso”.

Não se trata apenas de uma fotografia momentânea. O dado torna praticamente irreversível a candidatura do clã do ex-presidente. Preso a juras de lealdade e à dependência do bolsonarismo, Tarcísio dificilmente reuniria condições políticas para ingressar na disputa com Flávio já sacramentado.

O roteiro é conhecido: Lula lidera, a direita se divide e o centro não se impõe. Como observa o cientista político Paulo Baia, a liderança de Lula se dá sem entusiasmo pleno. Ele é percebido “menos como promessa e mais como contenção; menos como futuro e mais como barreira contra um retorno visto como mais perigoso”. O bolsonarismo, por sua vez, sobrevive menos pela capacidade de convencer e mais pela capacidade de mobilizar ressentimentos e tensionar permanentemente o sistema.

Esse diagnóstico ajuda a compreender a persistência da polarização. A eleição deixa de ser um espaço de escolha positiva e passa a operar como mecanismo de veto. Vota-se contra, não a favor. Nesse ambiente, a simples presença de um Bolsonaro na disputa reativa memórias, medos e identidades cristalizadas, empurrando o debate para um terreno já conhecido.

A Quaest confirma que o bolsonarismo segue como polo dominante da oposição e que seu núcleo duro se reorganiza rapidamente a partir da liderança de Jair Bolsonaro, ainda que inelegível. Mas revela também seus limites: trata-se de um campo político que não aglutina para além da própria bolha. Ao contrário, fragmenta a oposição e dificulta a construção de uma alternativa ampla. Para Lula, nada melhor do que enfrentar um adversário com elevada rejeição.

Com Tarcísio praticamente fora da corrida presidencial, o centro-direita, assim como setores do agronegócio e do mundo dos negócios que viam em seu nome uma ponte para o pós-polarização, enfrenta o desafio de se reorganizar. O tempo político corre mais rápido do que o calendário, e o senso de urgência começa a se impor.

Ou esse campo apresenta rapidamente um nome capaz de romper a polarização, ou seu eleitorado tende a se dispersar. Uma parte pode migrar pragmaticamente para Lula; outra, para o bolsonarismo raiz. Há ainda a hipótese do crescimento da apatia política, expressa pela abstenção ou pelo voto nulo.

Nesse contexto, surgem especulações em torno de Ratinho Jr. O governador do Paraná apareceu na última pesquisa com desempenho superior ao de Tarcísio, sinalizando que a hesitação do governador paulista e sua dificuldade de romper o cordão umbilical com o bolsonarismocomeçaram a cobrar preço. Ainda assim, trata-se mais de sintoma do vazio político do que de solução estruturada.

A migração das intenções de voto de Tarcísio para Flávio foi rápida porque, se é para o bolsonarismo marcar posição, o primogênito cumpre melhor o papel de herdeiro do “legado” do pai. O dado mais eloquente sobre a resiliência desse campo é que Jair Bolsonaro, mesmo impedido de concorrer, ainda aparece com índices elevados nas simulações.

O quadro reforça a leitura de que o país anda em círculo. O principal déficit do sistema político brasileiro é a incapacidade de organizar uma alternativa consistente à polarização. A ausência dessa alternativa não é apenas eleitoral; é programática e significativa. O centro político não sofre apenas com a falta de um nome competitivo, mas com a dificuldade de oferecer uma narrativa capaz de dialogar com um país exausto.

Existe, contudo, um eleitor que não se vê representado nem pelo lulismo nem pelo bolsonarismo. A própria Quaest indica que uma parcela relevante dos brasileiros preferiria um nome fora desse eixo. Trata-se do eleitor social-liberal, formado por pequenos empreendedores, classe média e jovens que ingressaram na vida adulta sob sucessivas crises. Para eles, a política deixou de ser promessa de ascensão e tornou-se instrumento de contenção de danos.

O tempo para organizar essa alternativa é curto. A cada pesquisa que reforça o duelo entre Lula e o bolsonarismo, mais difícil se torna romper a lógica binária. A polarização atrai recursos, atenção e militância, mas engessa o debate público. Pode até resolver a próxima eleição. Difícil é acreditar que resolva os problemas do país.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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