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O 7 de Setembro na Paulista: Quanto charme!(por Roberto Caminha Filho)

No fundo, o desfile de 7 de setembro é um show de entretenimento que tem seus méritos

Da Redação09/09/2024 12:00, atualizado 09/09/2024 01:18
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Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto
O 7 de Setembro na Paulista: Quanto charme!(por Roberto Caminha Filho)

Ah, o 7 de setembro! Dia de celebrar a nossa independência, que, claro, é sempre lembrada com uma majestosa coreografia de tanques de guerra, soldados marchando como se estivessem ensaiando para uma superprodução de cinema e, claro, o ponto alto: Getúlios, Lacerdas, Figueiredos, Malufs, acenando com aquele sorriso que a gente sabe ser sincero (ou quase). Mas vamos falar da verdadeira estrela do espetáculo: os produtores do evento, essas mentes brilhantes que transformaram a Avenida Paulista em uma passarela de egos inflados.

Primeiramente, vale destacar o cuidado com que os produtores escolhem o roteiro do desfile. Nada de surpresas! A previsibilidade é a alma do negócio. Se você acha que verá algo novo, pode esquecer. Eu até esperei por um milagre do Malafaia e um pedido de Boeing do Valdomiro! Necas de Catibiriu! É o clássico “se não está quebrado, não conserte”. Faltaram onças, cachorros, tanques, jipes, soldados – todos devidamente polido para brilhar ao sol, como se estivéssemos em um concurso de polimento de carecas supremadas. É a tradição, meu caro! Quem precisa de inovação quando se tem décadas de táticas ultrapassadas?

O segundo grande mérito dos produtores é a sensacional logística do evento. Fechar a Paulista para um desfile de proporções épicas em pleno horário de pico? Genial! Afinal, nada diz “viva a pátria” como uma avenida cheia de paulistanos, alegres, sem trânsito, bufando de alegria” enquanto tentam entender por que diabos resolveram sair de casa naquele dia. É quase um teste de resistência cívica: será que você aguenta mais de duas horas parado no mesmo lugar sem amaldiçoar a pátria? Desafio lançado!

E não vamos nos esquecer da escolha da trilha sonora. Quem pensaria em algo mais emocionante do que uma banda tocando marchas patrióticas com a empolgação de quem está fazendo isso pela milésima vez? Não importa que o público já tenha decorado cada nota – o importante é manter o espírito inabalável de uma nação que, aparentemente, só ouve marchas militares uma vez por ano. Que tal uma bossa nova ou um samba para quebrar o gelo? Que nada! É no gogó que a pátria se faz, caro leitor. Um clássico é um clássico.

Agora, o que seria desse evento monumental sem a presença ilustre dos digníssimos políticos? Aqui, o espetáculo atinge seu ápice. Eles chegam, acenam, sorriem, e, claro, fazem discursos carregados de promessas que nunca sairão do papel. A plateia aplaude, não se sabe bem por que – talvez pela falta de opções. Nesse momento, os produtores acertam em cheio ao deixar a plateia sem microfones: assim, ninguém precisa ouvir o que realmente pensam dos discursos. Os portugueses dizem, aos gritos, que para uma manifestação causar algum impacto devem estar no mesmo ambiente: estudantes, padres, professores e políticos, que saibam ler e escrever, para depois falar.

E aí temos o clímax do desfile: o povo desfilando e gritando o nome do Rey Sol, momento em que os aviões da Força Aérea deveriam sobrevoar a Paulista, como se estivessem garantindo que a população pudesse pedir a saída do Rey e continuasse a olhar para cima e ignorar o que acontece em terra firme. É uma metáfora perfeita, não acha? Enquanto todos estão de cabeça erguida, o caos continua por aqui mesmo. Depois dessa demonstração, o nosso Rey já pode gritar:

– O Estado sou eu! Se mexer eu corto o rabo e se falar eu corto a língua!

E quando finalmente o desfile termina, o grande trabalho dos produtores também chega ao fim. A cidade volta ao caos habitual, os carros presos no trânsito começam a se mover, os políticos retornam aos seus gabinetes, e os palanques voltam ao seu lugar de descanso, esperando o próximo 7 de setembro para brilharem mais uma vez. E os produtores? Ah, esses já estão pensando em como superar o grande espetáculo no próximo ano – se é que isso é possível. Vamos estilizar outro verde-amarelo. Esse está dando vergonha.

No fundo, o desfile de 7 de setembro é um show de entretenimento que tem seus méritos. É um evento em que nada sai do esperado, todos sabem exatamente o que vai acontecer, e a plateia, bem… continua indo, ano após ano. Porque, no fim das contas, o brasileiro é patriota e tem paciência de sobra. Ou talvez só esteja curioso para ver o próximo desfile. Desta vez, o amarelo, verde de medo, não era pela prisão com trinta anos de sombra, mas com o andar bêbado da Seleção Canarinho, que nos envergonha a cada jogo e dentro de casa, levando sufoco do elegante Equador.

Roberto Caminha Filho, economista, adora besteira e coisa sem graça. Inventem outra para eu ir.