No país do turismo sexual, 78% se dizem conservadores (Cila Schulman)

Pesquisa exclusiva explora dois temas que estarão no centro do debate na sucessão de 2022, além da economia: religião e política

atualizado 14/06/2021 4:10

goias igrejas provocam aglomeração Vinícius Schmidt/Metrópoles

No feriado da Páscoa de 1994, após se desincompatibilizar do Ministério da Fazenda para iniciar a campanha presidencial, Fernando Henrique Cardoso foi abordado pelos repórteres que faziam plantão em sua fazenda, em Buritis, perto de Brasília, para responder a uma pergunta que lhe perseguia. O candidato acreditava ou não em Deus?

A questão havia sido levantada quase 10 anos antes pelo apresentador Boris Casoy no último debate da campanha municipal de São Paulo:

Boris Casoy – Senador, o sr. acredita em Deus?

Fernando Henrique Cardoso – Essa pergunta o sr. disse que não me faria.

Casoy – Eu não disse nada.

Fernando Henrique – Perdão, foi num almoço sobre este mesmo debate.

Casoy – Mas eu não disse se faria ou não.

Fernando Henrique – É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus.

No dia seguinte ao diálogo acima, Fernando Henrique ocupou boa parte do seu programa eleitoral de encerramento de campanha na TV para explicar que não era ateu. Reconstruiu sua participação num culto ecumênico em cenas com rabino, com pastor, com o arcebispo. Não adiantou. Dois dias depois perdeu uma eleição que era considerada ganha – aquela da cena em que o candidato até sentou na cadeira de prefeito para pousar pra capa de revista. O vencedor foi um conservador que proibiu “por ser indecente” o biquiní nas praias e piscinas do país quando foi presidente da República, no início dos anos 1960, com o mote “ Jânio Quadros é a certeza do Brasil moralizado”.

Estamos em 2021 e ainda se discute se a falta de convicção ao responder sobre sua crença em Deus tirou de Fernando Henrique os votos necessários para a vitória na maior metrópole do país e se o Brasil do carnaval e do turismo sexual não passa, no fundo, de um lugar conservador. O empenho dos candidatos em agradar à maioria, em vez de defender o contraditório, contribuem para a falta de objetividade nesta contenda. Foi assim no segundo turno da eleição de 2010, quando tanto Dilma Rousseff quanto José Serra, dois progressistas, se transformaram em oponentes do aborto em troca do voto, um tema tabu que sequer é levantado pela bancada feminina no Congresso Nacional (tradicionalmente defensora da causa em outros países), tamanha o temor à resistência religiosa.

De maior país católico do mundo, temos nos transformado nos últimos anos em um gigante evangélico. Em 2018, elegemos um presidente que se diz terrivelmente conservador e que se mostra evangélico através da imagem de um batismo no Rio Jordão, através de sua mulher, fiel praticante, e do apoio político de dezenas de pastores. As pesquisa mostram que um dos três pilares de sustentação do atual governo – e que podem garantir a reeleição a Bolsonaro – é exatamente o eleitorado evangélico, além do eleitorado masculino escolarizado de classe média e do setor do agronegócio. Entre os evangélicos no último levantamento Exame/Ideia, publicado dia 11, 37% aprovavam a gestão de Bolsonaro, ante 20% dos católicos.

Em outra pesquisa realizada pelo Ideia Instituto de Pesquisa, com 1242 pessoas, entre os dias 7 e 10 de junho, com exclusividade para a sexta edição do Brazil Forum UK 2021, evento promovido pela comunidade de estudantes do Reino Unido, exploramos estes dois temas que estão mais do que nunca no centro do debate, religião e política. Para 40% dos entrevistados, “ter posição política é tão importante quanto ter posição ideológica”. Na região centro-oeste, onde Bolsonaro conta com um apoio relevante devido ao agronegócio, a adesão à frase “ter posição religiosa é mais importante do que ter posição política” tem a maior adesão: 28% contra 21% da média nacional.

Na mesma pesquisa, 47% das pessoas se declararam muito ou médio conservadoras nos costumes, 31% se consideram um pouco conservadoras e 21% não se consideraram conservadoras.  53% dos homens – outra fortaleza eleitoral de Bolsonaro – se disseram muito ou médio conservadores, contra 41% das mulheres. Entre elas, 25% não se dizem conservadoras, versus 19% deles.

Quando questionados especificamente sobre sua própria posição política, 42% concordaram com a classificação “nunca tive posição política, voto na pessoa” e 19% escolheram “já tive posição política, hoje não tenho mais”. De outro lado, 16% se consideram de direita ou de centro direita, 10% de centro e 13% de esquerda. Já sobre quem mais pode influenciar a opinião das pessoas na escolha de partidos ou de candidatos numa eleição, “a igreja (e seus pastores)” foi escolhida (6%) como opção pouco acima e na margem de erro de “os pais”, “os amigos”, “os empresários, o mercado financeiro” e “os professores”. A mídia/TV, no entanto, foi a opção da maioria, com 36%.

O sucesso dos dois candidatos que dominam a preferência do eleitorado para a sucessão de 2022 tiveram, de uma forma ou de outra, a contribuição de lideranças religiosas em seu caminho. O PT de Lula foi formado em 1980 tendo fortes vínculos com a igreja católica, notadamente através dos movimentos populares ligados à Teologia da Libertação. Bolsonaro, como se viu acima, se equilibra no apoio dos pastores e do eleitorado conservador. Agora, basta esperar para saber qual  peso a religião terá na escolha política do próximo ano e tentar responder, afinal: será Deus brasileiro?

 

Cila Schulman é jornalista, com especialização em gerenciamento de campanha eleitoral pela George Washington University, vice-presidente do Ideia Instituto de Pesquisa e partner da Behup, empresa de tecnologia e inteligência de dados.

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