Ninguém ouve as vozes palestinas

“A batalha pela Palestina é, acima de tudo, uma batalha pela narrativa”, escreveu o intelectual Edward Said

atualizado

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Imagem colorida do filme indicado ao Oscar A Voz de Hind Rajab - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida do filme indicado ao Oscar A Voz de Hind Rajab - Metrópoles - Foto: Divulgação

Uma menina de cinco anos dentro de um carro pede socorro pelo celular a uma organização humanitária. Dentro do automóvel, todos seus parentes, dois adultos e mais quatro crianças, estão mortos. Ela está no norte de Gaza, e o Exército de Israel dispara incessantemente no veículo. É possível ouvir os projéteis enquanto a voz desesperada da menina implora um resgate. Se você não se importa com os palestinos e acha que criticar a extrema-direita israelense é antissemitismo não assista ao filme “A Voz de Hind Rajab”, da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, recentemente disponível online.

Ou melhor, se você vive no automático, navegando neste rio deprimido e distópico que é nossa época, e só se abala quando o infortúnio é próximo, assista. Teste se ainda habita alguma humanidade em você. Prove se ainda pulsa alguma indignação em seu peito.

O filme utiliza a voz de Hind Rajab, a criança. É real, não é ficção, é a chamada gravada pela organização Crescente Vermelho que tece a história e rege os personagens. Essa menina precipita a pergunta: quem ouve as vozes dos palestinos, que há um século clamam por justiça? Mais: quem divulga essas vozes? Pergunte a si mesmo e diga o nome de três palestinos que representam a causa. Quem são? Nesse genocídio, a voz mais escutada foi a do Ministério da Saúde de Gaza – era ele quem noticiava o número de mortos.

São 71 mil vítimas, mais de 38 mil mulheres e meninas, 47 mulheres e meninas mortas por dia, segundo a ONU. E é um consenso que esses números vidas perdidas são muito maiores.

As vozes de Gaza não são legitimadas. Parte da mídia e dos políticos ocidentais não reconhecem os direitos palestinos. “A batalha pela Palestina é, acima de tudo, uma batalha pela narrativa”, escreveu o intelectual palestino-americano Edward Said. “Estamos documentando em tempo real, porque o mundo insiste em duvidar”, afirma a jornalista Bisan Owda. Gaza completamente destruída não é suficiente para mobilizar a comunidade internacional contra o poderio político de Netanyahu e Trump.

Antes a guerra era narrada por jornalistas. Hoje, com celulares e redes sociais, a voz parece ter se democratizado. Qualquer um pode gravar, enviar, transmitir. São milhares de vídeos mostrando o genocídio e mesmo assim, um muro algorítmico calou o choro das famílias, silenciou as duas centenas de jornalistas mortos pelos mísseis e balas israelenses Nem todo testemunho virou evidência.

“Para os palestinos, isso não começou em 1967. É uma guerra contra eles há mais de um século”, lembra o historiador palestino Rashid Khalidi. A frase reforça uma história que tenta ser isolada no presente. E as vozes dissonantes de Israel onde estão? Quem lê o Haaretz? É o que historiador israelense Ilan Pappé nomeia sem rodeios: “O que aconteceu na Palestina em 1948 não foi um acidente da guerra, mas uma limpeza étnica planejada”, ou “é uma hipocrisia apoiar a luta da Ucrânia, mas rotular a palestina de terrorista”.

“Ser palestino é viver em estado permanente de perda”, escreve a jornalista Susan Abulhawa. Quem se importa com o que acontece em Gaza, na Cisjordânia? Seguiremos ouvindo apenas as vozes da extrema-direita israelense? É preciso garantir que a história palestina exista e seja ouvida antes que tudo seja sangue, ruínas e exílio.

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