Não vai dar em nada (Por André Gustavo Stumpf)

As comissões parlamentares de inquérito são o momento mais alto na vida do parlamento

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Igo Estrela/Metrópoles
Senadores Randolfe Rodrigues (Rede AP), Simone Tebeb (MDB MS) e Humberto Costa (PT PE), falam com à imprensa ao final da CPI da COVID-19 4
1 de 1 Senadores Randolfe Rodrigues (Rede AP), Simone Tebeb (MDB MS) e Humberto Costa (PT PE), falam com à imprensa ao final da CPI da COVID-19 4 - Foto: Igo Estrela/Metrópoles

A explosiva e escatológica reação do presidente Bolsonaro não resolveu problema algum, mas aprofundou seu isolamento político. Os institutos de pesquisa indicam que sua rejeição alcançou 51%. Índice astronômico que, em princípio, desmonta qualquer perspectiva de reeleição.

A CPI existe, negar a evidência é dificuldade de entender a realidade. A questão objetiva que originou a pergunta dos senadores é clara: o presidente teve conhecimento das falcatruas que estariam ocorrendo no Ministério da Saúde, conforme a denúncia do deputado Luís Claudio Miranda? Sim ou não. Ele preferiu os palavrões.

As comissões parlamentares de inquérito são o momento mais alto na vida do parlamento. Provocam discussões apaixonadas, debates violentos. Algumas alcançaram resultados muito além das previsões mais entusiasmadas.

Uma delas, a que investigou o empresário Paulo Cesar Farias, resultou no afastamento de Fernando Collor da Presidência da República, que renunciou para não ser atingido pela decisão do Congresso. Ainda assim foi processado e cassado. O Supremo Tribunal Federal, posteriormente, anulou todas as acusações contra ele.

O então senador Jorge Bornhausen, chefe da Secretaria de Governo, disse em alto e bom som, quando a CPI foi instalada, ‘isso não vai dar em nada’. O curso da apuração chegou a resultado contrário. Mas CPI é assim mesmo. Parece briga de botequim. Ninguém sabe por que começa e muito menos como termina.

O magnífico filme de Spike Lee ‘Faça a coisa certa’ mostra o desentendimento entre italianos e negros em torno de ídolos do esporte que tinham suas fotografias penduradas na parede da pizzaria. A coisa começa com bate boca inocente no Brooklyn, Nova Iorque, e termina em morte, confusão, prisão e incêndio.

Volta e meia um depoente sai preso depois de oferecer suas razões ao plenário. O caso mais famoso foi o de Francisco Lopes, então presidente do Banco Central, que se negou a assinar o compromisso de falar a verdade. O presidente do colegiado, senador Bello Parga (PFL-MA), deu voz de prisão por desobediência e desacato.

O mundo caiu, o mercado financeiro entrou em parafuso, mas as coisas se acalmaram no curto prazo. Foi apenas mais uma crise. Altos e baixos da política brasileira são normais. O país adora fofoca e bravata. Os especuladores fazem fortunas do dia para noite.

Até os militares precisam exibir musculatura oral. Uma nota oficial divulgada pelo Ministério da Defesa afirmou que ‘essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável’. Tudo isso porque o senador Omar Aziz (PSD-AM) acusou ‘o lado podre das Forças Armadas de estarem envolvidos em falcatruas dentro do governo’.

As acusações têm o dom de desviar o foco do problema. A ação do tenente coronel da reserva Marcelo Blanco no sentido de abrir uma empresa para intermediar a venda de vacinas e equipamentos utilizados pelo SUS seria suspeita em qualquer foro. O fato de ele ser militar é apenas detalhe.

Essa CPI convive com pilantras, picaretas, mentirosos e aproveitadores de toda espécie. Até um policial militar de Minas, na ativa, que serve em Alfenas, apareceu nesta mina de ouro plantada dentro do Ministério da Saúde, que é a operação de venda de vacinas para o governo brasileiro.

Os erros do procedimento oficial no tocante à vacinação dos brasileiros são escandalosos, absurdos e, agora se percebe, dolosos, porque alguns buscavam benefício próprio em detrimento da saúde do cidadão. O início da vacinação no país começou quando o governador de São Paulo, João Dória, anunciou que começaria o processo de imunização em janeiro de 2021.

Só a partir daquele momento o governo federal se movimentou para conseguir o imunizante. Foi a disputa eleitoral que colocou a vacina no braço dos brasileiros. No início, apenas a Coronavac, paulista. Depois, outras marcas inundaram o mercado. Mas não é normal tentar comprar a Covaxin, indiana, antes de ser aprovada na Anvisa, com adiantamento de US$ 45 milhões e pagamento a uma terceira empresa, situada em Cingapura. Tudo isso é muito esquisito.

O amadorismo dos envolvidos é estranhíssimo. O pessoal fala de propina de 400 milhões de dólares por telefone celular. É ridículo. Sem dúvida, os membros da CPI têm a sua frente uma larga avenida para avançar nas investigações. Há farto material para ser estudado. Militares e civis envolvidos. Pode não dar em nada, mas pode alcançar o terceiro andar do Palácio do Planalto.

André Gustavo Stumpf escreve no https://capitalpolitico.com/

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