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Não está chocado com este escândalo nacional? (por Bárbara Reis)

O outro lado do jornalismo

atualizado

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1 de 1 foto com cor. redação metrópoles - metrópoles - Foto: Vinicius Schmidt/Metropoles

Na segunda-feira, à uma e meia da manhã, já muitos dormiam, o Correio da Manhã, incansável, publicou uma notícia marcante.

O texto tinha cinco parágrafos e 1872 caracteres.

De manhã, o Observador, diligente e madrugador, publicou uma notícia com base na do Correio da Manhã, citando o tabloide e acrescentando informação nova. Eram 8h e o texto ficou com 3495 caracteres.

A seguir, às 9h13, foi a vez da CNN Portugal. O site do canal optou por uma versão mais curta: 1382 caracteres. Às 10h47, a SIC também deu a notícia (1660 caracteres) e às 12h08, o canal Now fez o mesmo (1018 caracteres). No fim da manhã, dois sites de informação partidária também decidiram que a informação era relevante e devia ser publicada. Primeiro foi o Esquerda.net, do Bloco de Esquerda (12h28, 958 caracteres); a seguir, o Folha Nacional, do Chega (13h03, 1624 caracteres).

A sequência é fascinante. Mais fascinante é o conteúdo.

A “notícia” que animou todas as pessoas envolvidas – pelo menos sete editores e sete redatores, excluindo as equipas que fizeram vídeos a partir do texto – é sobre um novo contrato público, feito pelo Governo de Luís Montenegro, por ajuste direto, na semana passada.

Dito assim, parece tudo normal. O jornalismo é a disciplina da verificação e uma das formas de fiscalizar o Governo é verificar e dar a conhecer como é que o Governo gasta o dinheiro público. Para mais, tratando-se de um ajuste direto, portanto, sem concurso público.

Problema: a informação que estes sete sites nos deram – cinco de media, dois de partidos – não verifica nada e só parece querer causar indignação.

Ficámos a saber que a Secretaria-Geral do Governo fez um contrato para “aquisição de serviços de maquilhagem e cabeleireiro para os membros dos gabinetes ministeriais nas conferências de imprensa” e que esse serviço vai custar 11.520 euros por ano.

Como o contrato prevê “50 serviços” anuais, mais ou menos um por semana, “feitas as contas” – escreve o Correio da Manhã – “dos cofres públicos sairão 230,40 euros por cada vez que elementos do Executivo tenham de se preparar para falar aos jornalistas”. O jornal diz também que “em cada serviço, poderão ser maquilhados entre um e quatro membros” do Governo, homens e mulheres; que o contrato inclui desmaquilhagem de todos, e também cabeleireiro para as mulheres.

Ora aí está um enorme escândalo nacional!

Feitas as contas, pode também concluir-se que se dividirmos os 230 euros por quatro ministros, ficamos com um custo de 57 euros por ministro; se dividirmos os 57 euros por dois (metade para a maquilhagem, metade para os cabelos), ficamos em 28,75 euros para cada um dos serviços (no caso das mulheres).

Estamos a falar de 30 euros para um trabalho que, à tabela dos serviços ao domicílio, parece bastante razoável. Digo isto porque sei o que custa ir ao cabeleireiro e porque andei a ver os preços do mercado. Se eu quisesse que alguém viesse a casa pentear-me e maquilhar-me, tendo de esperar uma hora ou duas para me desmaquilhar a seguir, não encontraria mais barato.

Falar em 11 mil euros anuais neste caso é como falar da soma dos euros gastos em flores para as cerimónias do Governo ou da soma de filetes de pescada servidos no Palácio de Belém. Francamente, o Presidente bem podia poupar e servir atum enlatado e o Governo bem podia comprar flores de plástico e ficava tudo mais barato. Se eu comprar 160 pregos de cabeça plana e de nove milímetros de comprimento, isso custa-me 3,29 euros. Se eu comprar 40 mil, já são 822 euros. Um ramo de 20 rosas custa uma coisa, 12 ramos de rosas, custam x e 500 ramos de rosas, y. É fácil impressionar quando olhamos para as contas anuais. Uma caixa de iogurte grego natural de um quilo custa dois euros e picos. Mas eu gasto uns 400 euros por ano, a loucura!

Que este miserabilismo exista, está óptimo, nada a dizer. Mas que este tipo de raciocínio se traduza em notícia, é outra coisa.

A SIC, que remata a sua “notícia” de forma contundente – “A SIC pediu ao Governo explicações quanto a este contrato. Até agora, ainda sem resposta” – gasta quanto em maquilhagem e cabeleireiros por ano? Seja o que for, é uma coisa considerada necessária. O mesmo com o Governo. Porque é que um ministro tem de gastar do seu ordenado tempo e dinheiro para uma coisa que tem que ver com o desempenho da função?

Só a “notícia” do jornal do Chega explicitou o que parece estar na base do raciocínio do Correio da Manhã e de todos os que o seguiram: “A despesa levanta agora debate político quanto às prioridades na utilização de recursos públicos e ao recurso a serviços especializados de imagem para intervenções oficiais do Executivo.”

Esse “debate” não existe, mas, embora omitindo, foi isto que todos quiseram dizer: vejam o escândalo de haver maquilhadores e cabeleireiros para “tratarem” dos ministros antes de eles entrarem ao vivo nas televisões!

A “notícia” foi “marcante”, mas não para o balanço que se fará da atividade do Governo no fim do ano. Quando muito, irá para os anais do jornalismo sensacionalista, aquele que faz muito barulho, mas não serve o interesse público.

Isto não é fiscalizar o Governo. Isto é só um conjunto de caracteres a que estes sites chamaram “notícia” e que terá rendido uns cliques.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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