Musk, a Tesla e os riscos de viver no futuro (por João Pedro Pereira)

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Foto com cor. Musk na Casa Branca - Metrópoles
1 de 1 Foto com cor. Musk na Casa Branca - Metrópoles - Foto: Reprodução

Nesta tarde (7/7), a cotação da Tesla caía 7%, pondo a empresa a 40% de distância do pico de Dezembro do ano passado. Os detentores destas ações estão habituados a solavancos, mas uma queda deste calibre em sete meses será suficiente para testar alguns nervos.

Aqueles que mantêm a Tesla em carteira acreditarão que o empenho da empresa em fabricar o futuro – carros autônomos, táxis-robô, andróides multi-usos – acabará por compensar os problemas atuais do negócio e a dispersão do CEO.

A queda de hoje coincide com o anúncio feito por Elon Musk de que vai fundar um partido num país historicamente bipartidário, no qual os “terceiros partidos” estão remetidos a franjas.

O American Party é descrito por Musk como um partido para “os 80% que estão no centro”; o empresário diz agora que vê democratas e republicanos como extremistas. Mas é difícil colocar a ideologia de Musk em qualquer centro. O partido vai focar-se nas eleições para o Congresso e não nas presidenciais. Musk nasceu na África do Sul, pelo que uma eventual candidatura a Presidente precisará de outro protagonista.

A criação de um partido pelo gestor de uma empresa com vendas em queda seria um passo extraordinário se tivesse sido dado por qualquer outro. Mesmo para Musk, a fasquia está alta. Isto eleva a um novo patamar a acrimônia entre o CEO da Tesla e o homem mais poderoso do mundo, uma disputa que é mais perigosa para o primeiro do que para o segundo.

A decisão acontece após a famosa “Big, Beautiful Bill”, da qual Musk diz discordar por aumentar o défice dos EUA. Mas, entre muitas outras provisões, a lei retira incentivos à compra de carros eléctricos e acabará ainda a privar a Tesla de uma fonte de receita: a venda de créditos de emissões poluentes a outros fabricantes de automóveis. Era previsível que estas políticas acontecessem; as preocupações ambientais nunca estiveram na agenda do Presidente americano.

Tudo isto se desenrola com o negócio da Tesla num mau momento. As receitas das vendas de automóveis caíram 20% no primeiro trimestre (quando Musk estava nas boas graças presidenciais), por comparação com os mesmos meses de 2024.

As receitas totais encolheram 9%. O lucro afundou-se 71%, para 409 milhões de dólares. A margem do negócio desceu para 2,1%, quando era de 5,5% um ano antes. Os resultados do segundo trimestre serão apresentados no dia 23. Mas a empresa já comunicou o número de carros vendidos, que caiu mais de 13%.

Na Europa, as vendas afundaram-se (25% em Portugal em parte numa reação dos compradores às derivas políticas de Musk; mas também fruto da concorrência, incluindo da chinesa BYD. Em abril, as vendas europeias da BYD suplantaram pela primeira vez as da rival americana.

Em maio, Musk disse que a Tesla tinha “perdido algumas vendas à esquerda” e “ganho algumas à direita”. Com um novo partido e a hostilização a Trump, arrisca-se a perdê-las dos dois lados. É um sinal da polarização dos tempos que a venda de automóveis seja analisada em termos de facções políticas.

Já nos EUA, a lei que Trump assinou a 4 de julho vai acabar com um incentivo de 7500 dólares à compra de carros eléctricos, que vigorava desde 2008 e que é hoje um valor próximo da diferença entre o preço médio de um carro eléctrico e o de um carro a combustível. Também isenta de penalizações os fabricantes que não cumpram critérios de emissões poluentes. A Tesla sempre fez dinheiro a vender os seus créditos de emissões a outros fabricantes, tanto na Europa, como nos EUA. Estas vendas são uma porcentagem pequena das receitas; mas, como são vendas essencialmente sem custos, representam uma fatia significativa do lucro. No primeiro trimestre, se não fosse esta fonte de receitas, a Tesla teria tido prejuízo.

Apesar de tudo, a empresa continua a avançar rumo ao futuro imaginado por Elon Musk.

No mês passado, algumas pessoas no Texas foram convidadas a experimentar a nova aplicação de “táxis-robô” da Tesla. Os carros não têm ninguém ao volante, mas têm uma pessoa no lugar do passageiro da frente. Aqui, a Tesla chega atrasada: nos EUA já algumas empresas oferecem serviços semelhantes.

Numa outra estreia, um Tesla fez há dias o percurso da fábrica ao comprador (cerca de meia hora) sem ninguém lá dentro. “Não há pessoas no carro e não há controlo de operadores remotos em qualquer momento. COMPLETAMENTE autônomo”, escreveu Musk. A viagem decorreu sem incidentes, embora o carro tenha acabado de estacionar num local proibido.

Musk é o exemplo mais acabado do novo conceito de empreendedor visionário. Estamos longe dos tempos em que os CEO eram brilhantes e visionários quando apenas geriam empresas de forma brilhante e visionária. Steve Jobs nunca sentiu que precisava de transformar a política mundial. Mas lançar produtos hoje em dia soa a pouco.

Talvez a mais curiosa teoria para tentar perceber o fio condutor das empreitadas de Musk é a de que tudo converge para a criação de uma nova sociedade em Marte: a energia solar; os veículos eléctricos; os foguetões; a Internet por satélite; a escavação de túneis (criou a The Boring Company em 2016); e até uma rede social como uma espécie de plataforma de democracia direta. Antes de anunciar que ia criar um partido, Musk perguntou seus seguidores se o deveria fazer. “Por um rácio de 2 para 1, vocês querem um novo partido político e tê-lo-ão!”, decretou mais tarde.

Na cabeça de Musk, é possível que estejamos a acelerar, com ele à frente, para um qualquer futuro de ficção científica. Mas os números indicam que, para as empresas dele, a realidade vai chegar primeiro.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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