
Militares com um olho na direita e outro no Tio Sam (por Felipe Sampaio)
Roguemos que Nossa Senhora Aparecida inspire a caserna a manter a serenidade diante dos atuais desvarios entreguistas

Em 2026 as Forças Armadas não tocaram o alarme contra as assombrações da esquerda que habitam velhas cartilhas militares. Ao contrário, às vésperas das eleições, as paredes têm ouvido que os militares andam arrepiados é com a sabotagem inusitada da nossa soberania, pasmem, pela própria direita! Acontece que as bravatas do presidente ianque contra a soberania brasileira estão sendo animadas, quem diria, por fogo mui amigo. Para completar, os quartéis sabem que, se o circo do Tio Sam pegar fogo, de nada adiantarão nossos novos (e poucos) caças Grippen, nem os novos (e poucos) blindados Guarani, nem o novo (e único) submarino S-43. Nesse cenário, os militares não têm na sua ordem do dia um ‘projeto de país’ por algumas razões. De um lado, porque compreenderam que propor projeto para o desenvolvimento nacional não é sua atribuição. De outro, porque essa matéria nunca esteve prevista na sua formação. Resumindo, tomaram consciência de que a categoria não reúne as capacidades para formulação e liderança de um projeto de Estado.
Além do mais, os militares aprenderam no governo anterior que não é época para brincar de governar um Brasil que tem mais de 200 milhões de habitantes, um PIB trilionário, um sistema financeiro colossal, com mineração e agronegócio padrão global e um ativo ambiental com importância estratégica planetária, tudo interligado por redes complexas de serviços e infraestrutura. Enquanto isso, a negligência com a pandemia de COVID19, com a mudança climática, com a desigualdade social e com as relações exteriores quase puseram a pique a “Pátria amada idolatrada”. Naturalmente, há militares capazes de colaborar com políticas públicas e com a própria gestão. E é natural, em se tratando de um time de 300 mil profissionais, com boa qualificação técnica e administrativa, que muitos busquem oportunidades no Legislativo, no Judiciário, no Executivo e na iniciativa privada.
No entanto, isso é bem diferente de dizer que exista no universo militar um plano latente de poder, ou uma visão única de país, que conduza a uma solução ditatorial guiada pelos surtos pseudopositivistas de candidatos com propósitos duvidosos. Intrigante é que, vira e mexe, tanto os críticos quanto os admiradores da tropa, cobrem que se revele o suposto plano dos militares para o Brasil. Não há tal projeto na agenda fardada do momento. Da mesma forma que não faz sentido pensar que os policiais civis ou os funcionários da Embrapa tenham algum projeto de país. E não custa lembrar que não estamos mais em 1889, nem em 1964, tampouco em 2022.
É bem verdade que as elites, o povão, a imprensa e os políticos brasileiros continuam encantados – para o bem ou para o mal – pela imagem de uma mão amiga ou de um braço forte em prontidão para recolocar ordem e progresso na casa. Faz parte da cultura brasileira. Afinal, nossa República não nasceu de uma revolução iluminista. Não nasceu sequer como democracia. Ao contrário, muitos dos nossos ‘revolucionários’ republicanos eram monarquistas e escravocratas. Até o Imperador era mais simpático à abolição (e a proclamou) e à república (como o dizia nos convescotes europeus) do que os republicanos que o depuseram. Democracia mesmo só chegou com o terceiro presidente (e primeiro civil) e vem resistindo até hoje entre bailes e boiadas. Roguemos que Nossa Senhora Aparecida inspire a caserna a manter a serenidade diante dos atuais desvarios entreguistas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesFelipe Sampaio: Chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; é sócio da Terra Consultoria e Inovação.

