Meteorologia não mostra mudança climática (por Felipe Sampaio)

Melhor seria que a TV reportasse as previsões e os desastres meteorológicos explicando sua relação com as curvas de mudança climática.

atualizado

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Reprodução/ Governo de SP
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1 de 1 Imagem colorida mostra temporal em SP. Metrópoles - Foto: Reprodução/ Governo de SP

O tempo vira de uma hora para outra. A gente sai de casa com sol escaldante, à tarde cai a maior chuva e de madrugada faz aquele frio de bater o queixo. É esse tipo de variação que a previsão meteorológica da TV nos ajuda a acompanhar. Mudanças rápidas de elementos atmosféricos que ocorrem em horas, dias ou meses. Porém, o fato de estar fazendo mais frio do que no ano anterior não é suficiente para concluirmos que o planeta esteja esfriando. Na média das últimas décadas pode estar aquecendo. É para evitar esses desvios de análise no curto prazo (ruídos meteorológicos) que a Organização Meteorológica Mundial – OMM adota períodos de 30 anos como padrão para observação da mudança climática em escala planetária.

Sim. O clima do planeta está esquentando em ritmo alucinante há uns 200 anos, devido à queima de combustíveis fósseis em escala colossal para satisfazer a uma sociedade contemporânea que decolou de um bilhão de pessoas no séc. XIX para os atuais oito bilhões. O mundo vinha resfriando suavemente até então, mas as indústrias, transportes, agropecuária, mineração e outras atividades precisaram dar conta da demanda. Enquanto isso, o noticiário nos mostra diariamente desastres naturais momentâneos, como chuvas, secas, ventos e nevascas, que não nos possibilitam perceber se o mundo como um todo está aquecendo, tampouco as causas. São fenômenos meteorológicos que isoladamente podem até sugerir o contrário. Como podemos acreditar em aquecimento global com Nova York congelando a –30°? Isso a TV não explica porque é ruim para os negócios.

A meteorologia nos ajuda a planejar o curto prazo: a roupa do dia, colheitas, viagens, construção de estradas, contornando ou enfrentando temporadas de secas, chuvas, frio e furacões em certos locais. Usando o histórico de anos recentes somado a cálculos estatísticos, os meteorologistas podem até estimar o que ocorrerá no segundo semestre, quando frentes frias esbarrarem em massas de ar quente. Se analisarmos o El Niño isoladamente, comparando o evento deste ano com o do ano passado, também estaremos fazendo uma avaliação meteorológica. Ou seja, útil para prevenir as autoridades e as pessoas sobre as providências dos próximos dias, para proteger a infraestrutura, o patrimônio, a saúde e os negócios durante a ocorrência passageira do fenômeno.

Apenas se analisarmos as variações do El Niño nos últimos 150 anos (em blocos de 3 décadas), observando temperatura, alcance geográfico, duração e intensidade, obteremos o gráfico adequado para estudar tendências de mudança climática estrutural. Melhor ainda se juntarmos as curvas de outros fenômenos meteorológicos: monções na Índia, enchentes no Nilo, nevascas no hemisfério norte, secas na Amazônia, tornados nos EUA. Com tantas curvas e mapas de longo prazo é possível comprovar que a atmosfera da Terra está aquecendo a galope.

Melhor seria que a TV reportasse as previsões e os desastres meteorológicos explicando sua relação com as curvas de mudança climática. Ficaria mais fácil acordarmos para a gravidade do aquecimento que está se intensificando de forma imprevisível (e irreversível). Porém, do jeito que a coisa vai, em breve a moça do tempo nos mostrará extremos meteorológicos de tal magnitude que dispensarão explicações. Estará na cara que alguma coisa está fora de ordem.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi empreendedor em mineração; dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; chefiou a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.

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