Mercado e protecionismo (por Ricardo Guedes)

Hoje, entretanto, com as limitações ecológicas, as teorias econômicas terão que ser repensadas

atualizado

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Porto brasileiro com conteiners
1 de 1 Porto brasileiro com conteiners - Foto: APPA/Divulgação

Há um equívoco de percepções sobre o que significam as teorias econômicas de mercado, por um lado, e os argumentos políticos pela abertura ou protecionismo das economias, por outro. O primeiro, diz respeito à discussão sobre a maior ou menor eficácia econômica do mercado; o segundo, diz respeito à conveniência ou não de se abrir as economias dos países pelas respectivas classes empresariais e políticas dominantes, em cada país.

 

Uma coisa são as teorias econômicas clássicas e neoclássicas, que se iniciam com os trabalhos de Adam Smith em “A Riqueza das Nações”, em que ele diz que “não existe nada mais antigo quanto os homens do que a sua propensão a comercializar, barganhar e trocar uma coisa por outra”. Todos agindo individualmente no mercado otimizam a produção e o bem estar geral, como decorrência da “mão invisível do mercado”. Após a Grande Depressão de 1929, onde a percepção exacerbada do valor das ações na bolsa de valores sem a devida contrapartida financeira levou à recessão da economia, Keynes sugeriu a intervenção do Estado, para investir em bens públicos para a manutenção da mão de obra, e regulamentar o sistema financeiro para evitar variações que possam prejudicar a economia.  Mais recentemente, na década de 1990, a Teoria dos Jogos, na versão de John Nash, ao mesmo tempo contestou e complementou as teorias de mercado, mostrando que o conjunto de ações individuais podem gerar outcomes positivos ou negativos para a coletividade, e para os indivíduos. Os jogos podem ser “soma +1”, onde o lucro de um é acompanhado pelo lucro do outro, como em soluções de trânsito; “soma0 (zero)”, onde um necessariamente ganha e o outro necessariamente perde, como na final de um Campeonato de Futebol; e “soma -1”, quando ambos sempre perdem, como em uma guerra atômica.

Se os recursos econômicos fossem ilimitados, o mercado poderia sempre crescer, com as devidas regulamentações.

Estamos hoje nos primórdios do que serão as teorias econômicas do amanhã, em situação similar ao que foi o Iluminismo Francês para as Ciências Sociais dos séculos XIX e XX.

Outra coisa, são os argumentos políticos para se abrir ou não se abrir as economias dos países. Esses argumentos são de conveniência, das classes políticas e econômicas de cada país, às vezes em prol da abertura parcial ou total, visando a um objetivo específico de desenvolvimento, ou então para que essas elites possam se manter no poder. A Inglaterra, por exemplo, durante o auge do seu período industrial e colonial, de 1750 a 1900, sempre apregoou a “abertura dos portos”, no desenvolvimento máximo do que os favorecia. Com a perda das colônias no final do século XIX, e crescimento da Alemanha no início do século XX, a Inglaterra passou a adotar políticas protecionistas com a taxação de produtos alemães, origem econômica de duas Guerras Mundiais. Assim foi também com os Estados Unidos no século XX, com o seu crescimento e prevalência sobre os outros países, até o seu declínio relativo perante ao crescimento da China neste século XXI, com os Estados Unidos então adotando políticas protecionistas com a taxação de produtos estrangeiros, na contraposição direta ao que foi o Consenso de Washington.

Assim, uma coisa é o mercado, outra a política, que às vezes parecem contraditórios, mas que em verdade são sempre coadjuvantes, nos objetivos da manutenção do poder político e econômico das nações.

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago

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