Manual do barraco: o plenário virou ringue (por Roberto Caminha Filho)

Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!

atualizado

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Kebec Nogueira/Metrópoles @kebecfotografo
Deputado Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS
1 de 1 Deputado Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS - Foto: <p>Kebec Nogueira/Metrópoles<br /> @kebecfotografo</p><div class="m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle"><div id="div-gpt-ad-geral-quadrado-1"></div></div>

No meu Brasil brasileiro havia quem achasse que o Congresso Nacional ainda mantinha algum resquício de compostura. Na recente cena envolvendo o deputado Lindbergh Farias, o deputado Alfredo Gaspar além da senadora Soraya Thronicke, resolveram atualizar o diagnóstico: estamos na fase do “vale-tudo político com plateia pagante”.

O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!

Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.

A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.

É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.

A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?

Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.

Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!

Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.
Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.

A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.

É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.

Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.

Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.

Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?

O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.

Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.

Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.

O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.

Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.

Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.

Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.

O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.

No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.

Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.

Roberto Caminha Filho, economista, aposta R$1,00 no tapa do reeleito Gaspar.

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