Malandros e trambiqueiros (por  Gustavo Krause)

São personagens centrais da sociedade brasileira. Não são sinônimos, apesar das semelhanças

atualizado

Compartilhar notícia

Material cedido ao Metrópoles
Ladrão do estilingue no DF
1 de 1 Ladrão do estilingue no DF - Foto: Material cedido ao Metrópoles

São personagens centrais da sociedade brasileira. Não são sinônimos, apesar das semelhanças. O malandro tem uma conotação positiva na nossa paisagem cultural. Adota um estilo de vida peculiar. É temente a Deus e ao trabalho. Desafia as convenções sociais de modo a levar vantagem em tudo que se mete. Para lograr uma existência livre, leve e boa, desenvolve habilidades da esperteza. Da astúcia. Aprimora a arte enganar e encontra sempre que se deixa enganar: a legião dos otários.

No entanto, passa raspando pelo Código Penal de modo a não cair na malha do artigo 171 (estelionato e fraudes diversas). Não é bandido. Pelo contrário. O malandro e o ambiente da malandragem são fontes de inspiração do cancioneiro, da literatura e da pesquisa sociológica.

O renomado antropólogo, escritor e jornalista, Roberto DaMatta (1936), na obra magistral Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro – Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2012, define o malandro como “um ser deslocado das regras formais, fatalmente excluído do mercado de trabalho. Aliás definido por nós como totalmente avesso ao trabalho e individualizado pelo modo de andar, falar e vestir-se”.

Por sua vez, a romantização do malandro é cantada na poesia musical do samba-choro de autoria de Assis Valente (1911-1958) Camisa Listrada, 1937, imortalizada na voz da “pequena notável”, Carmen Miranda (1909-1955). Jorge Aragão compôs a canção Malandro (1983) interpretada pela saudosa Elza Soares (1930-1922). Cabe destacar a consagrada peça do teatro musical de Chico Buarque de Holanda, A Ópera do Malandro, encenada em 1979 e adaptada ao cinema em 1985.

Na literatura e na criação de personagens televisivos, cinematográficos, o malandro é tema recorrente e que molda um tipo original, um modelo arquetípico, desde a figura criada nas Memórias de um Sargento de Milícias, explorada pelas diversas escolas literárias, a exemplo do legado modernista em Macunaíma – O herói sem nenhum caráter (Mário de Andrade, 1893-1945)) e que está na boa da companhia do espertíssimo e irreverente Vadinho em Dona Flor e seus dois maridos (Jorge Amado,1912-2001).

Não custa mencionar a figura singular do vivaldino Castelo, o protagonista do delicioso conto de Lima Barreto (1881-1922) que engabelou o Barão de Jacuecanga e os burocratas da época como O Homem que Sabia Javanês. E para além de nossas fronteiras, cabe destacar a figura octogenária e icônica de Zé Carioca, criado nos estúdios Walt Disney (o Joe) como um versátil e suave representante do estilo do carioca da época, alegre, criativo, bem-humorado, manero, tempos longínquos em que a diplomacia americana praticava e difundia o “soft power”. E na epifania de Herivelto Martins, hoje desnaturada, morar no morro era viver pertinho do céu.

A verdade é que os tempos mudaram radicalmente. Na era competitiva e performática, não há lugar para o malandro tradicional. Sobra a tentação da ganância e, com ela, afunda o ideal ingênuo da vida boa e simples. O crime é o vizinho em todos os recantos do espaço social. A malandragem dá lugar à bandidagem. A astúcia e a esperteza abrem passagem para a delinquência; a fraude é o método; estelionato, mais do que um tipo penal, é o objetivo permanente para obter a vantagem ilícita; e  organizar a ação criminosa, um investimento estratégico.

Entra em cena o trambiqueiro. O falsário, o trapaceiro, o golpista sob um invólucro mais “elegante”: o marginal pleno. No caso brasileiro, este tipo de delinquente utiliza padrões sofisticados na estruturação dos negócios à margem da lei. Elabora um plano e monta a estratégia para o assalto ao bem público ou privado. A estratégia se aproveita do persistente patrimonialismo do estado brasileiro onde viceja a promiscuidade entre o interesse público e o privado. É o “locus” adequado.

Com razoável esforço de observação, é possível identificar o perigo bem como acionar os mecanismos de proteção às vítimas potenciais. Senão vejamos.

Todo trambiqueiro desenvolve o agudo senso oportunista, sabe onde está o “tesouro” e, certeiro, versátil, conhece, também, as formas mais eficientes de abordagem. Começa com um discurso pró-mercado. Mentira. Foge da concorrência e da competição como o diabo da cruz. Em compensação, adora todo tipo de subsídios, monopólios e tudo mais que esteja sob o manto corrompido do “capitalismo de laços e de compadrio”.

Prevenido, o marginal pleno/trambiqueiro se protege com uma sólida arquitetura jurídica montado por “competentes” consultores e advogados pagos com honorários estratosféricos. Prefere, é claro, os que demonstrem comprovada influência junto às autoridades. Cuida com zelo especial de instalar “lavanderias”; plantar vastos “laranjais”; buscar os paraísos fiscais de modo a apagar responsabilidades e sonhar com o crime perfeito.

Todo ele se mostra atual. Antenado. Digitalizado. Convincente. Cultiva um verniz de modernidade no estilo. É neo. Neo-rico. Neo-enófilo. Neo-Gourmet. Neo-brega com métricas chiques no falar, soleniza lugares-comuns; no vestir, roupas de marca, caras, com certo “despojamento corporativo”; no divertir (aí mora o perigo), luxos, excentricidades e uma casual cafungada no pó.

Dos escândalos amplificados com o ditongo “ão”, ao careca do INSS”, ao “trambanqueiro” do Master e ao guloso Magro da Refit, todos ostentam para valer. Ao fim e ao cabo, espetaram algumas dezenas de bilhões de reais nos costados dos aposentados do INSS e no bolso do contribuinte. As promessas do sistema de compliance, os mecanismos de fiscalização e controle passaram batidos diante de evidentes sinais de enriquecimento ilícito.

Ninguém viu. O impressionante livro de Saramago O Ensaio sobre a Cegueira oferece uma explicação, ainda que ficcional: epidemia geral que afetou a visão de uma comunidade. No nosso caso, tudo indica que ocorreu, e pode continuar ocorrendo, epidemias, porém, seletivas o que garante aos delinquentes o troféu da impunidade.

PS. Saúde e Paz aos leitores e leitoras. Se Deus quiser, voltarei no final de janeiro.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?