Lula supera Odete Roitman e Agatha Christie (por Felipe Sampaio)
Planalto escalou três nomes inesperados na luta contra o tarifaço: André Esteves, Jorge Paulo Lemann e Joesley Batista
atualizado
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Não foi a primeira vez que se fez um bolão de apostas para palpites sobre quem detonou alguém no noticiário. No caso da Odete Roitman, por exemplo, o fenômeno chegou a se repetir, porque malvada alcançou a proeza de ser assassinada duas vezes! Primeiro na pele de Beatriz Segal e agora reencarnada em Débora Bloch. Mistério semelhante já havia se passado em 1934, no romance policial da escritora britânica Agatha Christie, “Assassinato no Expresso do Oriente”. A trama se desenrolava ao longo de apenas uma noite, quando um passageiro fora morto em viagem no luxuoso trem europeu e, assim como no caso da Odete, a suspeita recaía sobre vários possíveis autores.
Porém, uma terceira ocorrência (ainda mais intrigante) deu-se recentemente no dia a dia da política, aqui na Terra da Santa Cruz. O enredo bem que merecia receber o nome de “Vale Tudo”, se a Globo já não tivesse emplacado o título em duas edições da novela das nove. No caso da política, a personagem incomum que fez as vezes de Odete Roitman (ao vivo e on line) foi o autodeclarado ianque-brasileiro Eduardo Bolsonaro. Nesse caso, o roteirista e diretor do desenlace genial não foi nenhum novelista famoso, mas sim o habilidoso Presidente Lula, com cabeça fria de fazer inveja a budistas e iogues.
Acontece que, quando o republicano Donald Trump aproveitou o defeito no teleprompter para se declarar ao seu colega brasileiro em cadeia internacional, o bolão de apostas disparou. Todo mundo querendo saber quem teria sido o autor do petardo que esfarelou o castelo de areia da nossa extrema direita. Animados pela versão daqueles 39 minutos fulminantes nos bastidores da ONU, os progressistas e a imprensa rapidamente viralizaram: “Lula é um encantador de serpentes”.
A ideia não é de todo errada porque o presidente brasileiro foi forjado com fibra nordestina e já deu provas de ter coragem de mamar em onça. Está habituado a encantar cobras de diferentes cores do caleidoscópio político desde as lutas no ABC Paulista contra a ditadura militar. Contudo, no caso do tarifaço bolsonarista, o bolão de “suspeitos do bem” incorporou três nomes inesperados: André Esteves, Jorge Paulo Lemann e Joesley Batista.
O trio foi bem escalado pelo Planalto: Esteves (BTG Pactual) é banqueiro e tem influência nas rodas empresarias e políticas de frequentadores da Forbes, tanto nas páginas brasileiras, como nas estadunidenses. Lemann (ex-sócio de Warren Buffett) comanda marcas globais americanas como Budweiser, Burger King e Heinz. Joesley produz nos Estados Unidos grande parte da carne que engorda o Tio Sam e o caixa de campanha de Trump. Difícil saber qual dos três teria disparado o tiro de misericórdia nos caprichos do Deputado (em home office) Eduardo, porque, escolhidos a dedo, todos operam munição de grosso calibre financeiro, reconhecida desde Wall Street até a Faria Lima. Desestabilizar a geopolítica colegial do time Bolsonaro foi como lançar um míssil balístico em cima da trupe de Brancaleone.
Quando as luzes se acenderam, pudemos aplaudir de pé um desfecho que lembra o livro de Agatha Christie, no qual o último golpe não foi desferido por apenas uma mão, mas por todos os envolvidos, de maneira orquestrada. Justiça seja feita, se fosse um filme, ao final o Oscar de melhor diretor iria mesmo é para o Presidente Lula. Por sua vez, o Vice Geraldo Alckmin levaria com louvor a estatueta de melhor ator. Os três empresários poderiam merecidamente compartilhar o prêmio de efeitos especiais.
Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas, no terceiro setor e organismos internacionais; foi empreendedor em mineração; dirigiu o sistema de dados e estatísticas do Ministério da Justiça; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife.


