Lula no dilema da social-democracia de coalizão (por Felipe Sampaio)
É exagero classificar o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula como esquerda radical, como insistem os seus opositores
atualizado
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Assim como outras agremiações trabalhistas mundo afora, o PT habita no campo vasto da social-democracia, acrescido de tempero sindical e popular. Por isso, é exagero classificar o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula como esquerda radical, como insistem os seus opositores.
Situada originalmente no que se pode chamar de centro-esquerda, ao longo do séc. XX a social-democracia europeia misturou elementos do capitalismo liberal com uma versão democrática de socialismo.
Nesse caminho, promove uma economia de mercado sob regulação do governo, ao lado de investimentos públicos e políticas sociais (Estado de bem-estar social). É nessa moldura que o PT e o PSOL, de modo geral, se encaixam.
Nas últimas décadas, segmentos da social-democracia foram incorporando outros aspectos econômicos e fiscais capitalistas, ganhando o apelido de terceira via (equivalente no Brasil ao PSDB, PSB e REDE).
Sendo assim, as elites neoliberais e conservadoras brasileiras exageram e disfarçam sua própria intransigência na defesa de velhos interesses, ao tacharem os governos social-democratas do PT como ‘uma ameaça de esquerdização’.
Na verdade, quando governa, o próprio PT mostra flexibilidade na sua convicção social-democrata. Enquanto implementa políticas sociais como o bolsa-família, mais médicos e outras, faz conceções, não só ao mercado financeiro e ao agronegócio, mas também aos setores políticos de centro que se especializaram na oferta de ‘serviços de governabilidade’, seja para a esquerda ou para a direita.
Segundo Sérgio Abranches (Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro), o Brasil vive uma espécie de parlamentarismo informal, no qual a “composição do Poder Executivo se dá com base em grandes coalizões de sustentação político-parlamentar”, devido a entulhos do arcabouço eleitoral brasileiro que não foram reparados pela Constituição atual.
No dia a dia, não raro, esse hábito naturalizado na política brasileira derrapa para um “presidencialismo de cooptação”, conforme mencionado por Gustavo Guimarães (Presidencialismo de Coalizão, Ed. Blucher).
Nesse cenário, um partido com sensibilidade socioambiental como o PT (em uma atmosfera neocolonial como a brasileira), acaba sofrendo a cobrança de um pedágio político ainda mais caro por parte de neoliberais e conservadores. Por isso, barganha aspectos de seu genoma em troca de alguma perspectiva de prosperidade para seu projeto de poder.
Resta saber o quanto Lula está disposto, dessa vez, a negociar com o Centrão, o mercado e segmentos militares históricos, considerando-se a falência precoce da ‘frente ampla’ que o elegeu, a herança (política, social e fiscal) do período Bolsonaro e as mudanças climáticas galopantes.
Felipe Sampaio: foi assessor dos ministros da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018); ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020); colabora com o Centro Soberania e Clima.


