Lá vem Setembro (por Tânia Fusco)
Bolsonaro é muito mais do que um bode posto na sala. Também não é um elefante em loja de louças. É uma carreta sem freio, desgovernada!
atualizado
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Neste ano, setembro traz mais do que a primavera. Vem com a ameaça de manifestação armada, reunindo polícias e fanáticos, com paralisação de caminhoneiros, fechamento de estradas, cerco ao Congresso e ao STF.
Uma rebelião, enfim, com tudo que isso pode significar.
Para nós, que temos vivido ameaçados desde que o capitão desvairado botou faixa de presidente, além da apreensão, resta a pergunta: até onde vai a loucura de quem pisoteia a democracia, debocha da pandemia, renega as urnas que o elegeram para sete mandatos de deputado federal, além de meio mandato como vereador pelo Rio de Janeiro?
Até ser eleito Presidente da República, o capitão-político passou por 9 partidos. Foram 27 anos de troca-troca. PDC (1989-1993); PP (1993–1993); PPR (1993–1995); PPB (1995–2003); PTB (2003–2005); PFL (2005–2005); PP (2005–2016); PSC (2016–2018); PSL (2018-2019).
Zero compromisso político-partidário.
Honra seja feita, esteve sempre à direita da direita, sempre vociferando preconceitos, conceitos próprios dos fascistas, ameaças à Democracia. Enfim, eternamente na ameaçadora extrema direita. Ainda assim, com a complacência inclusive de gente que tinha informações claras sobre o tipo, ganhou – no voto, que despreza – cadeira e caneta de presidente. Com ela o comando das Forças Armadas. E o empenho em armar “seu povo”. Só compra e tem armas quem pensa em usá-las – a seu favor, contra algo ou alguém.
Juntos, o PR – na versão Nero, premido por 63% de desaprovação – e os seus, prometem incendiar setembro.
Não é pouca coisa para um povo que já leva nos ombros a desgraceira da pandemia do Covid, da inflação, que alcança todos, do desemprego, da fome e da violência, que bate no couro dos mesmos de sempre – brasileiros pobres, carentes principalmente do Estado.
De tão ameaçados, não é que a gente tome ao pé letra as intimidações do desvairado Jair. Também não descarta a aventura de uma rebelião puxada por ele. Ainda que não tenha sucesso, pode desorganizar ainda mais o Brasil já devidamente desgovernado.
Bolsonaro é muito mais do que um bode posto na sala. Também não é um elefante em loja de louças. É uma carreta sem freio, desgovernada, vindo em direção à nossa democracia. E, também em respeito à ela, é difícil (não impossível) brecar a carreta e estancar a instabilidade política.
“Do Bozo a gente pode esperar tudo, inclusive nada”, diz uma senhora para outra, enquanto regula o avanço de quatro crianças no freezer de picolés veganos, na porta da padaria gourmet. “Ele é descolado da realidade. Uma desgraça ambulante”, emenda. A companheira reforça: Tresloucado, irresponsável.
Ninguém, entre os que estavam próximos, pareceu discordar. Houve troca de olhares, sorrisos trocados. Percebendo que falava alto o suficiente para ser ouvida pelo grupo, a senhora insiste: Desculpa aí, mas perdi a paciência com esse bando de loucos que já levaram a gasolina a sete reais, não têm compostura, nem apreço pela democracia. Não têm nada de bom, enfim.
Nova troca de olhares e sorrisos na fila do sorvete, no sábado de sol, em bairro de renda média superior a 10 salários mínimos.
A senhora dos desabafos, fechou a conta dos picolés das crianças, recomendou só tirar as máscaras quando entrassem no carro, e despejou: Sou do século passado, gente. Já vi muita coisa. Igual a isso, a esse, nunca.
Lá vem setembro, com 25 governadores atuando por trégua política. O governador de São Paulo, João Doria, demitiu, por indisciplina, o chefe do Comando de Policiamento do Interior-7 (CPI-7), coronel Aleksander Lacerda, da Polícia Militar de São Paulo. Quantos mais precisarão ser contidos?
O coronel Lacerda, que chefiava cinco mil homens, de sete batalhões, atuando em 78 cidades do interior de São Paulo, pelas redes sociais, convocava para manifestação bolsonarista, marcada para 7 de setembro. Defendia que “liberdade não se ganha, se toma”; que para combater as esquerdas é preciso “um tanque, não um carrinho de sorvete”. E prometia: “O caldo vai entornar”.
O cantor Sergio Reis, parece, botou o galho dentro no propósito de fechar estradas, parar o país, até que o Senado decida “tirar” ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em seu áudio-convocatória, prometia: Enquanto o Senado não tomar essa posição, nós vamos ficar em Brasília e não saímos de lá até isso acontecer. Se em 30 dias não tirarem os caras (ministros do STF), nós vamos invadir, quebrar tudo e tirar os caras na marra. Pronto. É assim que vai ser. E a coisa tá séria.
Investigado, por organizar manifestações “criminosas e antidemocráticas”, o cantor recolheu o berrante pra jurar: É – e sempre foi – democrata. No caso dos áudios, só falou demais e foi vítima de um “amigo da onça”, que divulgou sua falação.
O presidente tresloucado, motiva os seus, encaminhando ao Senado pedido de impeachment do Ministro Alexandre de Moraes, do STF.
A atriz Marieta Severo disse em entrevista: Nunca senti uma angústia cívica tão grande.
Eu também.
A Primavera deste 2021 começa às 16h21 do dia 22 de setembro.
Tânia Fusco é jornalista


