Kissinger e liderança (por Antônio Carlos de Medeiros)

A liderança enfrenta a influência da internet e das redes sociais, que formam tribos que estimulam a polarização política e o populismo

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1 de 1 imagem em preto e branco de Henry Kissinger ao telefone - Metrópoles - Foto: Internet/Reprodução

Em tempos de carência de liderança, aqui e acolá, Kissinger publicou um livro excepcional: “Liderança”. Trata-se da seleção de personalidades políticas do Século XX, que influenciaram seus países e a geopolítica mundial.

Maquiavel entendia a liderança fora de série como aquela que consegue combinar a Fortuna (as circunstâncias) com a Virtú (a capacidade de agir e liderar).

O filósofo Epiteto, citado por Kissinger, escreveu: “não podemos escolher nossas circunstâncias externas, mas podemos sempre escolher como reagir a elas”. Kissinger diz que é o papel do líder ajudar a guiar essa escolha e “inspirar seu povo em sua execução”.

Para ele, a grande liderança resulta da colisão do intangível com o maleável, do que é dado com o que é exercido: “permanece um escopo para o esforço individual – para aprofundar a compreensão histórica, aprimorar a estratégia e melhorar o caráter”. É pertinente o efeito da ação do líder.

Kissinger chegou a esta síntese a partir da constatação de que os grandes líderes tiveram, ao mesmo tempo, a capacidade de entender a história e o momento histórico em que viveram e, também, de influenciar os rumos da História.

A sua análise é compreensiva e brilhante, escrutinando as trajetórias de seis personalidades políticas fora de série. Segundo Kissinger: (1) Konrad Adenauer, que ajudou a Alemanha a enfrentar as conseqüências do nazismo com a “estratégia da humildade”. (2) Charles de Gaulle, que teve determinação e visão histórica para restaurar a confiança da França no pós-guerra, com a “estratégia da vontade”. (3) Richard Nixon, que demonstrou ampla compreensão do balanço de poder das potências mundiais, com a “estratégia do equilíbrio”. (4) Anwar Sadat, do Egito, responsável pelo primeiro tratado de paz com Israel, com a “estratégia da transcendência”. (5) Lee Kuan Yew, que levou coesão nacional a Cingapura, com a “estratégia da excelência”. E (6) Margaret Thatcher, britânica, que liderou com tenacidade para enfrentar a crise econômica dos anos 1980, com a “estratégia da convicção”.

Na essência, para Kissinger, o líder transformador combina características de visionário (ou profeta) e de estadista. O estadista entende que a sua primeira missão é preservar a sociedade, buscando a mudança e o progresso, e a segunda missão é conservar um senso de limite. “Líderes sábios ao modo do estadista reconhecem quando circunstâncias inéditas exigem que instituições e valores existentes sejam transcendidos. Mas compreendem que, para a sua sociedade prosperar, teem de assegurar que a mudança não vá além do que ele pode sustentar”, acrescenta Kissinger.

O líder visionário redefine o que parece possível.  O objetivo é transcender, mais do que gerenciar o status quo. Líderes podem passar de um modo a outro. Na prática, os líderes analisados no livro são uma síntese das duas tendências, “embora com uma propensão ao estilo estadista”. O teste do estadista é a durabilidade da estrutura política sob estresse.

Os seis líderes analisados fizeram a diferença por transcender as circunstâncias herdadas e, desse modo, transportar suas sociedades às fronteiras do possível.

Na sociedade atual, em rede, a liderança enfrenta a influência da internet e das redes sociais, que formam tribos que estimulam a polarização política e o populismo. E solapam a formação de lideranças. Até quando?

No meio tempo, o Brasil está em busca de um novo líder, no sentido geracional.

Em 2020 e 2021, principalmente, o chamado “centro democrático e progressista” tentou estimular o debate pré-eleitoral de 2022 em busca da costura e construção de uma nova liderança, para além da polarização crescente. Não conseguiu.

Recentemente, o Datafolha cravou que a polarização “entre petistas e bolsonaristas” segue cristalizada, um ano depois da eleição de 2022: 29% de petistas e 25% de bolsonaristas raiz. Já o centro eqüidistante chega a 21% e 5% rejeitam qualquer posicionamento, segundo a pesquisa. Há liderança para mobilizar e galvanizar os 26% ?

A contínua polarização vai se tornando irmã siamesa da dificuldade na formação de novas lideranças. Efeitos (globais) da sociedade em rede.

 

*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

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