Kassab errou? (por Leonardo Barreto)
Spolier: o erro dele quase todo mundo cometeu
atualizado
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A forma como a candidatura presidencial de Ratinho Jr. se “desmanchou no ar”, aliada ao “estremecimento” da relação entre Gilberto Kassab com o governador Tarcísio de Freitas, caiu mal para quem sempre celebra a capacidade estratégica do presidente do PSD.
Afinal, ele errou? Para responder essa pergunta é preciso, antes, entender seus objetivos estratégicos.
O que ele (sempre) mira é fazer uma grande bancada na Câmara dos Deputados, “pelo menos 80 cadeiras”, como afirmou em entrevista recente. Sua leitura é que o presidente da Casa é, atualmente, uma espécie de copiloto na condução da presidência do país, dada a sua importância para organizar a agenda do governo, qualquer um que seja ele.
Nesse sentido, Kassab atuou com uma estratégia muito clara: (i) atração de políticos com mandatos e (ii) liberdade regional para que cada um monte seu palanque de acordo com a conveniência local.
Dos sete governadores atuais do PSD, quatro (GO, RS, RO e PE) foram atraídos no último ano. No estado de São Paulo, o partido chegou a 329 prefeituras (praticamente 50% do total) sendo que 82 gestores chegaram nos últimos doze meses.
No aspecto de ocupação de espaço, possivelmente ninguém compete contra Kassab.
Esse bom desempenho, no entanto, não o isenta de avaliações equivocadas, às quais todos estão sujeitos. A principal delas, como está sugerido nos casos Ratinho Jr. e Tarcísio, foi subestimar o bolsonarismo.
O lançamento de Sérgio Moro para o governo do Paraná aterrorizou o grupo político de Ratinho Jr. que se viu sob risco de perder todo o seu patrimônio político de uma só vez. No estado, o lava-jatismo e o bolsonarismo se mostraram ainda como importantes catalizadores da direita.
No caso de São Paulo, Kassab, com a grande quantidade de prefeitos, talvez tenha tentado se impor a Tarcísio, forçando sua acomodação na vice-governadoria. Sua confiança na própria condição ficou evidente quando disse, numa entrevista desastrada, que o governador de São Paulo não deveria ser submisso a Jair Bolsonaro.
Escondida nessa frase estava um xeque-mate: oferecer uma plataforma de direita moderada para o país (que atingiria o seu ápice “roubando” a joia da coroa bolsonarista, o governador de SP) em desafio – sim, a palavra é desafio – à direita bolsonarista.
Ele tinha estofo para tanto? Ele tinha razões para crer que sim.
Considerando apenas cidades com mais de 200 mil habitantes, o PSD de Kassab enfrentou diretamente o PL dos Bolsonaros em oito delas: Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), São José dos Campos (SP), Ribeirão Preto (SP), Londrina (PR), Florianópolis (SC), Maceió (AL) e Jundiaí (SP). Desse total, o PSD venceu em seis e perdeu em apenas duas (Maceió e Jundiaí).
O que Kassab não contava neste ano – e não apenas ele – é que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se consolidasse tão rapidamente e que tivesse uma capacidade de estruturação de palanques locais, como ocorreu no Paraná, de forma tão competente.
A consolidação de Flávio Bolsonaro fez com que Tarcísio, por exemplo, também não tivesse dúvidas em permanecer na órbita do ex-presidente ao invés de migrar para a zona de influência K.
Dessa forma, a surpresa de Kassab foi a surpresa de todo mundo e é difícil atestar que ele errou. Especialmente porque, olhando à frente, ele ainda conserva intacta a estratégia de eleições de bancada e ainda tem chance de ter o PSD como fiel da balança para definir um eventual segundo turno neste ano, o que não é pouco.
Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.


