Inteligência climática, pero no mucho (por Felipe Sampaio)

O mercado fica feliz, mas não tem planeta que aguente

atualizado

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A inteligência é o atributo humano mais festejado nos bancos escolares e mesas de bar. Basta lembrar que nossa safra antropológica se autodenominou ‘homo sapiens’. Não era à toa que René Descartes afirmava que “o bom senso é a coisa melhor distribuída, porque todos acreditam possuí-lo em grande quantidade”. Há controvérsias. Como é que um bicho que se acha inteligente não cansa de degradar o meio ambiente que o sustenta?

Parece haver um impulso insaciável de botar a mão em recursos naturais para os propósitos mais supérfluos e em quantidades superiores às nossas necessidades fundamentais. Nietzsche dizia que o homem é o único animal capaz de atribuir valor subjetivo às coisas, além de sua utilidade real. É nessa praia que o mercado deita e rola. São inacabáveis designs, cores, modelos, marcas, dos itens mais variados, desde um cotonete até um carro de luxo, passando por todo tipo de bugiganga. O mercado fica feliz, mas não tem planeta que aguente.

O resultado é a mudança climática, uma realidade incontornável que avança desembestada. E, quando vamos tomando consciência do estrago, sempre aparece uma distração maior que nos desvia do caminho de reparação do meio ambiente (que seguimos consumindo sem limites). Como nada está tão ruim que não possa piorar, a distração geralmente tem a ver com alguma guerra mal explicada. Sejamos francos, as guerras são lucrativas por si e, de quebra, ainda proporcionam o medo e a incerteza necessários para desanimar o debate socioambiental e dar um gás na ansiedade de consumo. O risco de perder soberania – seja territorial, energética ou alimentar – coloca na geladeira qualquer tratativa de descarbonização da economia e transição para energias renováveis.

É aí que deveria entrar a inteligência do sapiens. No caso, poderíamos chamar de inteligência climática. Não confundir inteligência com informação, conhecimento ou tecnologia (tampouco com inteligência artificial). Inteligência de verdade significa a capacidade de usar todo esse pacote de saberes pata tomar decisões com lucidez de intenções. Colocar em movimento uma inteligência climática começa pela humildade de reconhecer o poder da natureza e a fragilidade da vida humana (inclusive dos homens brancos ricos).

Vale destacar que o Estado é imprescindível nessa escala de intervenção. Para isso, o Estado do sapiens também precisa ser um Estado inteligente. Quem chama a atenção para esse aspecto é a CEO do GovTec Lab, Téo Foresti Girardi. Como curadora do São Paulo Innovation Week, ela lembra aos executivos privados e públicos que “O verdadeiro diferencial competitivo dos governos, daqui em diante, estará menos na aquisição de tecnologia e mais na construção de capacidade institucional para empregá-la com propósito, coordenação e responsabilidade” (Estadão, 17/03/26).

Como pesquisadora em inovação governamental, Téo Foresti aproveita para puxar a orelha dos inquilinos da Terra da Santa Cruz: “O Brasil precisa, com urgência, de mais espaços que ajudem a formular suas escolhas com efetividade, porque o futuro dos governos não começa amanhã, ele começa agora, nas decisões que somos capazes de tomar hoje”.

Em resumo, entre um míssil e outro, o homo sapiens precisa praticar sua inteligência, tirar o aquecimento global da gaveta, aprofundar os estudos sobre a mudança climática, usar a tecnologia para simular cenários e para calcular custos e riscos. E, acima de tudo, para planejar as adaptações do modo de vida humano, dos mercados e da política à nova realidade do meio ambiente terrestre.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife, é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa.

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