Incógnitas das eleições de 2026 (por Antônio Carlos de Medeiros)
Direita pode se realinhar a partir do foco na segurança
atualizado
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As eleições gerais de 2026 no Brasil se configuram cada vez mais como equações com muitas variáveis e incógnitas. Lembram um pouco as eleições de 1989. Muitas variáveis que resultaram em muitas candidaturas. Agora, são consequências da tensões e contradições geradas pela enorme antecipação do ciclo eleitoral de 2026. As incógnitas serão decifradas até abril ou até as convenções partidárias? A dúvida socrática está no ar.
Com pesos e valores com primazia, as principais incógnitas interferem na conformação das variáveis – (para fazer aqui uma analogia simbólica com as equações com muitas variáveis). Explico-me.
A direita do espectro político se dividiu na largada e gerou a incógnita Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Agora, com a repercussão geral da questão da segurança no Rio de Janeiro e no país como um todo, pelo enorme poder espraiado do Comando Vermelho, a direita pode se realinhar a partir do foco na segurança.
Mas a incógnita Tarcísio de Freitas permanece. Ele vai ser candidato a presidência da República ou vai para a reeleição? Fontes nacionais apostam que ele recuou taticamente da candidatura presidencial, mas vai retomar quando Jair Bolsonaro vier a cumprir sua pena de prisão – talvez já em novembro ou dezembro.
Depois desta fase, Tarcísio anunciaria sua candidatura presidencial. O movimento é tático. Mas o fato é que a incógnita política com Tarcísio interfere de forma estrutural na potencial fragmentação e consequente fragilidade do campo de direita.
Enquanto isto, a fragilidade conjuntural da direita tem fortalecido a liderança do presidente Lula no campo da esquerda. Mas a sua desaprovação voltou a crescer, depois dos seus recentes improvisos sobre a questão da segurança no Rio de Janeiro e no país. Atingiu 44% após a megaoperação contra o CV no Rio.
Lula se declara candidato, mas se afasta do Centro do espectro político. E cria outra dúvida socrática: ele trabalha mais pelo fortalecimento do PT e do seu legado ou pela viabilidade da sua candidatura presidencial?
Essa viabilidade é, hoje, ainda duvidosa. São pelo menos três fatos que geram a dúvida.
Primeiro, o fato de que recente pesquisa da Quaest mostrou que 54% dos brasileiros preferem uma liderança de Centro do espectro político. Segundo, o fato de que a avaliação positiva do governo Lula III ainda é baixa. E terceiro o fato de que em torno de 60% do eleitorado julga que Lula não deveria se candidatar por uma quarta vez. Com efeito em alto nível de rejeição eleitoral.
Potencial fadiga de material. Potencial cristalização da rejeição eleitoral.
São e ainda serão muitas tensões e contradições.
Com um fato novo. Trata-se do prenúncio da fragmentação do Centro político, com o seu eventual afastamento da base do governo Lula. O MDB, por exemplo, está em movimento de afastamento, na medida em que Lula cada vez mais vira para a esquerda.
Realmente, a Política não é mesmo uma equação matemática e uma jornada cartesiana.
Assim, por ora, a conclusão realista de sempre parece ser oportuna: muita água ainda vai passar debaixo da ponte.
Mas tem uma variável decisiva nas expectativas para 2026. São altas as rejeições dos políticos e de muitos candidatos.
E é enorme a tendência de um quadro de alienação eleitoral em 2026 (brancos, nulos e abstenções). O que permite considerar uma hipótese: se os votos em branco voltassem a ser votos válidos, eles teriam peso significativo.
Por isto, parafraseando Garrincha, é preciso “combinar com o beque”, Sua Excelência o Eleitor. A maioria dos eleitores está no Centro do espectro político. O sinal político de expectativa da formação de uma Frente Ampla para governar o Brasil a partir de 2027.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.


