IA nas campanhas eleitorais (por Gaudêncio Torquato)

A IA tende a acentuar assimetrias e a favorecer práticas pouco republicanas

atualizado

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1 de 1 imagem ilustrativa de Inteligência Artificial- estudo - Foto: Tara Winstead/Pexels

O avanço da inteligência artificial nas campanhas eleitorais inaugura uma nova fronteira na comunicação política — e, ao mesmo tempo, expõe zonas cinzentas da legislação. O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, coloca as ferramentas de IA (inteligência artificial) como um dos principais desafios para as eleições gerais deste ano. “Mentira tecnicamente otimizada”, diz o magistrado.

Se, no passado recente, marqueteiros dependiam de pesquisas qualitativas, grupos focais e longos diagnósticos de percepção, hoje algoritmos são capazes de mapear, em tempo real, emoções, preferências e inclinações do eleitorado. A promessa é de eficiência cirúrgica; o risco, de manipulação sofisticada.

A IA permite segmentar mensagens com precisão inédita. Não se trata apenas de dividir o eleitorado por renda, idade ou região. O novo patamar envolve perfis comportamentais detalhados, construídos a partir de rastros digitais. Cada eleitor passa a receber conteúdos moldados sob medida, com linguagem, símbolos e argumentos ajustados a suas crenças. A campanha deixa de ser um discurso público e passa a ser uma multiplicidade de narrativas privadas, muitas vezes inconciliáveis entre si.

Nesse cenário, a substituição de pesquisas qualitativas tradicionais por análises automatizadas altera o próprio processo de construção política. O contato humano — a escuta direta, o diálogo em profundidade — cede lugar à leitura de dados. O eleitor deixa de ser sujeito de uma conversa e passa a ser objeto de modelagem estatística. O risco é evidente: perde-se a nuance, ganha-se a simplificação algorítmica.

Mais preocupante, contudo, é o uso dessa tecnologia para contornar regras eleitorais. A legislação foi concebida para um ambiente em que a propaganda é visível, auditável e, em certa medida, rastreável. A IA, ao contrário, opera na opacidade. Mensagens diferentes podem ser enviadas a milhões de pessoas sem que haja um registro público claro. O controle institucional, nesse contexto, torna-se mais difícil. O que se vê na superfície — debates, programas eleitorais, inserções oficiais — pode ser apenas uma fração do que efetivamente circula nos bastidores digitais.

É nesse terreno que prosperam as chamadas fake news. A inteligência artificial não apenas acelera a disseminação de desinformação como também a torna mais verossímil. Textos, imagens e vídeos podem ser gerados com aparência de autenticidade, dificultando a distinção entre o real e o fabricado. Além disso, a interpretação enviesada de pesquisas ganha escala: números são apresentados fora de contexto, gráficos são manipulados, conclusões são induzidas. O dado, que deveria iluminar, passa a confundir.

Outro instrumento recorrente é a caricatura do adversário, muitas vezes travestida de humor. A sátira sempre fez parte do jogo político, mas a IA potencializa sua capacidade de alcance e repetição. Memes, vídeos curtos e montagens circulam em velocidade vertiginosa, cristalizando imagens distorcidas de opositores. O humor, nesse caso, deixa de ser apenas crítica e passa a ser arma de desgaste contínuo.

O impacto desse conjunto de práticas sobre a democracia é profundo. Quando cada eleitor recebe uma versão distinta da realidade, o espaço público se fragmenta. O debate coletivo, essencial à vida democrática, perde consistência. Em seu lugar, surgem bolhas informacionais, onde crenças são reforçadas e divergências são caricaturadas.

Não se trata, contudo, de demonizar a tecnologia. A inteligência artificial pode, sim, contribuir para campanhas mais eficientes, para a identificação de demandas sociais e para a ampliação do diálogo com o eleitor. O problema reside no uso que dela se faz. Sem transparência, sem regras claras e sem fiscalização efetiva, a IA tende a acentuar assimetrias e a favorecer práticas pouco republicanas.

O desafio que se impõe é o de atualizar o arcabouço legal e institucional. É preciso pensar em mecanismos que garantam rastreabilidade das mensagens, identificação de conteúdo gerados por IA e responsabilização de campanhas que ultrapassem limites éticos. Ao mesmo tempo, cabe à sociedade — eleitores, imprensa e instituições — desenvolver maior capacidade crítica diante do fluxo informacional.

Em última instância, a questão é menos tecnológica e mais política. A inteligência artificial apenas amplifica intenções já existentes. Se o objetivo for informar, ela será aliada. Se for manipular, será instrumento poderoso. Entre uma coisa e outra, está o futuro das campanhas eleitorais — e, em larga medida, da própria democracia.

 

GAUDENCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político

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