HÁ VINTE ANOS – Brasília e a CPI da corrupção (Por Armando Mendes)

Fitas gravadas vão ser tão ou mais importantes do que os testemunhos pessoais

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Mão com dinheiro -- Metrópoles
1 de 1 Mão com dinheiro -- Metrópoles - Foto: Getty Images

A capital deve estar se aprontando para mais uma temporada na montanha-russa. Brasília fica outra cidade, mais nervosa, em tempos de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito, para quem esqueceu o que significa a sigla). Ou, pelo menos, aquela porção da cidade que gira em torno do governo federal e da Esplanada dos Ministérios.

O foco do nervosismo é sempre o prédio do Congresso. Não foi à toa que Lúcio Costa o situou no vértice principal da Praça dos Três Poderes. O Congresso é o bumbo, o megafone, a caixa de ressonância de Brasília. Se uma CPI de bom porte produz terremotos políticos, o epicentro é lá.

Em tempos normais, o Congresso já é muito chegado a um rumor, um disse-me-disse. No meio de uma CPI, multiplique-se por mil essa capacidade boateira.

Alguma raposa velha da política ou do jornalismo, não me lembro qual, dizia que a melhor maneira de espalhar um boato em Brasília era sussurrá-lo no Salão Verde, o amplo vestíbulo que cerca o plenário da Câmara dos Deputados. No fim do dia, o boato teria ganho a cidade – aumentado dez ou cem vezes, é claro. Com a Internet, ganha o país inteiro fácil, fácil.

Como será a cobertura de uma CPI explosiva nestes tempos de mil blogs na rede? A informação rápida, instantânea, vai certamente multiplicar o nervosismo. E talvez uma coisa mude em relação às CPIs mais barulhentas do passado, a dos anões do Orçamento e a do governo Collor: as fitas gravadas vão ser tão ou mais importantes do que os testemunhos pessoais.

As investigações dos anos 90 se deveram muito à mentalidade escravocrata da elite brasileira: os donos do país (e a classe média também) estão acostumados a ignorar soberbamente quem trabalha para eles. Agem e falam como se motoristas, empregados e auxiliares em geral não existissem, não tivessem olhos nem ouvidos (nem consciência). Só mãos e pernas para os servir.

Pois os motoristas e secretárias deram o troco contando o que viram e o que tiveram de fazer. Agora, quem sabe, será a vez do gravador e da câmera de vídeo ocultos. Um avanço tecnológico, talvez. Mas uma CPI sem a testemunha-bomba abrigada no gabinete do senador Eduardo Suplicy não vai ter a mesma graça.

 

(Publicado aqui em 10 de agosto de 2005)

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