Governo Milei enfrenta novas acusações de corrupção (por Javier Lorca)
Documentos judiciais e do Congresso apontam para possíveis irregularidades em empréstimos hipotecários
atualizado
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O governo de Javier Milei está envolvido em um novo escândalo de corrupção, desta vez relacionado à concessão de empréstimos multimilionários a altos funcionários e legisladores da administração de extrema-direita. Denúncias e pedidos de informação já apresentados ao Poder Executivo apontam para possíveis irregularidades e conflitos de interesse nos empréstimos, que foram concedidos com recursos dos mesmos bancos públicos que, segundo a retórica oficial, o regime de Milei pretendia desmantelar ou privatizar.
Os empréstimos hipotecários ou com garantia sob investigação foram concedidos pelo Banco de la Nación Argentina entre 2024 e 2025, ou seja, quando Milei já estava no poder. Os valores envolvidos variam de 100 milhões a 527 milhões de pesos (entre US$ 71.000 e US$ 376.000 à taxa de câmbio atual), pagáveis em parcelas de até 30 anos e com taxa de juros de 4,5%, também sujeita à inflação.
“Os beneficiários adquiriram um direito financeiro incompatível com seu patrimônio líquido ou renda real”, afirma uma das denúncias apresentadas em juízo, neste caso assinada pelos deputados Esteban Paulón (Partido Socialista) e Mónica del Frade (Coligação Cívica). As ações judiciais visam as autoridades do Banco Nación e também os beneficiários dos empréstimos pela possível prática dos crimes de fraude contra a administração pública, abuso de poder e prevaricação.
Entre os beneficiários, encontram-se pelo menos 22 pessoas com ligações ao governo. Destas, estão altos funcionários diretamente envolvidos na gestão económica: Felipe Núñez, diretor do Banco de Inversión y Comercio Exterior (BICE) e assessor do Ministério da Economia, com uma dívida de 373 milhões de pesos; Federico Furiase, secretário nacional da Fazenda, com 367 milhões; e Pedro Inchauspe, diretor do Banco Central da República, com 510 milhões. Outros beneficiários incluem Juan Pablo Carreira, diretor de Comunicação Digital da Presidência; Sharif Menem, diretor da secretaria privada da Câmara dos Deputados; Emiliano José Mongilardi, diretor da petrolífera YPF; e os deputados do partido La Libertad Avanza Santiago Santurio, Alejandro Bongiovanni, Mariano Campero e Lorena Villaverde, entre outros.
O governo Milei passou as últimas horas tentando defender a legalidade dos empréstimos. “As taxas e condições oferecidas são para todos que atendem aos requisitos do banco”, afirmou o Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno. O Ministro da Economia, Luis Caputo, também declarou que os beneficiários “não têm nenhuma vantagem sobre os demais”. “Não há nada de ilegal ou imoral nisso”, acrescentou.
A força dos argumentos do Executivo desmoronou quando a demissão de um dos beneficiários dos empréstimos se tornou pública. Leandro Massaccesi, chefe de gabinete do Ministério do Capital Humano, foi demitido do cargo na última quinta-feira pela ministra Sandra Pettovello, após ter vindo à tona que ele estava entre os que receberam empréstimos do Banco Nación. Milei e outros porta-vozes do governo afirmaram posteriormente que sua demissão não tinha relação com o escândalo, mas o próprio Massaccesi defendeu a legalidade do empréstimo nas redes sociais e lamentou sua saída abrupta do governo.
As questões levantadas sobre funcionários e legisladores não apenas apontam para possíveis violações das condições e exigências bancárias, mas também destacam que os benefícios oferecidos pelo Banco Nación aos servidores públicos não deveriam ser estendidos a indicados políticos, que não possuem estabilidade no emprego. Além disso, enfatizam a incongruência entre um discurso ultraconservador que rejeita o Estado e, ao mesmo tempo, o aproveitamento de seus benefícios enquanto ocupam cargos públicos.
“Eles não vieram para destruir o Estado, vieram para explorá-lo”, alertou Rodolfo Aguiar, líder da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE), um dos sindicatos de servidores públicos. Como forma de protesto, a ATE convocou seus delegados e membros em todo o país a solicitarem empréstimos semelhantes aos obtidos por altos funcionários e legisladores. “Agora nós, trabalhadores, é que queremos empréstimos dos mesmos valores, com as mesmas taxas de juros e os mesmos prazos de pagamento”, acrescentou.
O escândalo surge em um momento inoportuno para Milei. A economia argentina permanece estagnada nos setores que sustentam o emprego e o consumo, enquanto a inflação, o grande fantasma que assombra o país, volta a acelerar a uma taxa de 3% ao mês. As pesquisas de opinião concordam que a imagem do presidente de extrema-direita está em seu ponto mais baixo, corroída por casos de corrupção como a suposta fraude envolvendo a criptomoeda Libra, divulgada pelo próprio Milei; irregularidades na compra de medicamentos para a Agência de Assistência à Pessoa com Deficiência, que envolvem sua irmã, Karina Milei; e o possível enriquecimento ilícito de um de seus principais colaboradores, Manuel Adorni, chefe do Gabinete de Ministros.
(Transcrito do El País)


