Futuro climático ameaça sabores que sustentaram a literatura baiana

Em Jorge Amado, o dendê é sinônimo de abundância cultural, celebração e pertencimento

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Azeite de dendê
1 de 1 Azeite de dendê - Foto: Getty Images

Por Mariana Caminha

Bastou um gesto distraído à mesa para o garfo, ainda sujo, voar do prato e cair justamente sobre o meu vestido branco. Dizem que mancha de dendê não sai. Considerei, portanto, o caso perdido.

Aconteceu há poucos dias, em Salvador, para onde Alexandre e eu fomos passar alguns dias. Uma pausa rara da correria, do trabalho, das terapias, das crianças (que ficaram com os avós em Brasília).

E estar na Bahia é, inevitavelmente, comer como os baianos. Muito acarajé, vatapá, caruru, moqueca. Tudo regado a muito dendê, esse óleo espesso, dourado e perfumado, herança africana que moldou parte da identidade culinária brasileira. Nós adoramos.

Curiosa, saí pesquisando sobre os ingredientes que sustentam os tabuleiros das baianas. Descobri algo inquietante: alguns desses sabores começam, lentamente, a desaparecer das feiras como consequência das mudanças climáticas.

O caso do dendê é especialmente simbólico. Há relatos de escassez, aumento de preços e queda de produção na Bahia, o que afeta diretamente o acarajé e outros pratos tradicionais. O calor excessivo, as alterações no regime de chuvas e as mudanças nas condições do solo começam, também, a impactar colheitas que durante décadas pareciam eternas.

Tenho a impressão de que a Bahia sempre tratou o dendê como algo inesgotável, quase uma extensão natural da própria paisagem. A produção anual na região conhecida como Costa do Dendê (especialmente nos municípios de Taperoá, Valença e Jaguaribe) chega a mais de 40 mil toneladas de frutos. Já foi maior, dizem os produtores locais.

O dendê há muito ultrapassou os limites gastronômicos. É só pensar em Jorge Amado, que transformou a comida baiana em personagem central de suas obras. Seus livros cheiram a mercado, azeite, peixe, pimenta. Os tabuleiros das baianas, as feiras populares, os botequins e os mercados aparecem como espaços de memória, oralidade, resistência e sobrevivência.

Em Jorge Amado, o dendê é sinônimo de abundância cultural, celebração e pertencimento. Na vida real de hoje, porém, ele começa a carregar outro significado: o da fragilidade climática.

O sabor da moqueca. O cheiro do acarajé na rua. O encanto é inegável.

Penso que futuro climático também possa ser medido assim: pelo desaparecimento lento de sabores que um dia pareciam eternos. Não é isso que queremos. Vida longa ao dendê!

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