Futebol e patriotismo (por Tânia Fusco)

Lá vieram os fiscais do patriotismo cobrar fidelidade à Seleção Brasileira na decisão da Copa América contra a Argentina

atualizado

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Buda Mendes/Getty Images
Messi Argentina
1 de 1 Messi Argentina - Foto: Buda Mendes/Getty Images

A mistura – em forma de cobrança – foi tema do final de semana em que a Argentina venceu o Brasil na Copa América que, a seco, nos enfiaram goela abaixo em plena vigência da pandemia do Covid.  Muitos brasileiros torceram e exibiram alegria com a vitória dos hermanos.

Pronto. Lá vieram os fiscais do patriotismo cobrar fidelidade à Seleção Brasileira, indignados com a suprema ofensa de, amando o futebol, ousar não amá-la – na alegria e na tristeza.

Patriotismo é definido como amor à pátria, devoção à pátria. Nem amor, nem devoção têm característica de serem incondicionais.  E aí entra a Seleção Brasileira de Futebol.

Quem torce contra manifesta desânimo e desaprovação pela postura isolacionista do conjunto de brasileiros que a compõem. Gente incapaz de manifestar qualquer sentimento, qualquer empatia com o momento difícil que vive o país – campeão em mortes pelo Covid, campeão nos assassinatos de pessoas LGBTQI+ e de mulheres, racista, com milhares de desempregados, milhares de famintos sem perspectivas de futuro.

Torcendo contra a Seleção Brasileira também expõem indignação com a CBF, organismo podre que comanda e desacredita o futebol brasileiro. Gostando ou não de futebol, qualquer brasileiro alfabetizado sabe dos imbróglios da CBF.

Como as milícias, todo mundo sabe que existe, seus chefes são conhecidos, mas nada é feito para combater seus mal feitos e seus malfeitores. As milícias são apenas mais novas do que a CBF em tempo de existência e atuação. Ambas fruto da impunidade.

Patriota é quem deseja e atua por um país melhor. Quem sofre e trabalha contra a desigualdade renitente que puxa o país pra baixo.

Mais de 530 mil mortes (evitáveis) pelo Covid, alguém viu a seleção entrar em campo manifestando sentimento e respeito por essas vidas perdidas, pela desgraça dos filhos sem pais, dos pais sem filhos, das famílias dizimadas?

Ainda que seu futebol fosse maravilhoso – e não é – como aplaudi-la?

Torço porque sou brasileiro. Equação fechada? Sou mineira e torço pelo Corinthians. Não sou italiana e torci pela Itália na final da Eurocopa. Brasil afora há milhares de não cariocas torcedores do Flamengo. Naturalidade e nacionalidade não tornam a torcida obrigatória.

É até infantil desenhar isso. Como é infantil (patriotada) cobrar patriotismo de quem torceu contra a Seleção Brasileira na indigitada Copa América.

Entre N motivos para apreciar e torcer pela Seleção Argentina há a diferença dos seres humanos Messi e Neymar – estrelas dos dois times. Talentosos sem dúvida. Neymar adulto virou um garoto bobo, boyzinho inconsequente que vem ao Brasil principalmente – ou exclusivamente – para farrear. Nenhum compromisso com nada. Nem com o governo capenga e insensível que apoia.

Fosse menos tonto, mais gente, poderia talvez-quem-sabe oferecer-se para ser garoto propaganda da vacinação no Brasil. Que imensa vitrine seria ele! Com o mundo se lascando, no ano passado, como outros atletas, Messi e Neymar fizeram doações para o combate à pandemia. Messi dividiu a doação entre uma instituição de saúde de Barcelona e outra de Rosário, na Argentina, sua cidade-natal. Neymar repartiu sua doação entre o UNICEF e um fundo de solidariedade liderado pelo apresentador Luciano Huck.

No final do ano e no carnaval deste ano, Neymar esqueceu a pandemia comendo solta no Brasil e veio festejar com amigos. Muitos. A festança acabou embarreirada. O mau exemplo e o descompromisso com a saúde pública não. Bem Neymar, o de sempre.

Mas a Seleção não é só Neymar…  Verdade. Como é verdade que Seleção Brasileira de Futebol faz tempo que não enche os olhos, não seduz. Não há Tite que acenda chama e brilho da Seleção.

Mas o futebol mudou… Outra verdade. Mudou.  No Brasil, além de enfeado pelas mudanças em campo, o futebol sofre e patina nas lambanças (dos patriotas?) da CBF.

Patriotas, cara pálida, são médicos, enfermeiros, motoristas de ambulância, todos os trabalhadores da saúde que enfrentam os demônios da doença para salvar vidas. Estão lá, na linha de frente, arriscando a vida, lutando contra a doença, contra a falta de luvas, máscaras, respiradores, oxigênio. Cansados, exaustos, sem tempo para estar com a família, relaxar brincando de videogame, não param para que o jogo de muitas vidas siga rolando.

Patriotas são os milhares de anônimos que se viram nos 30 para cumprir os protocolos de enfrentamento da pandemia, protegendo a si e aos outros.

Patriotas foram brasileiros como Josué de Castro, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Nise da Silveira, etc. e etc. Gente que usou a Ciência para pensar o Brasil, estudar o Brasil, oferecer diagnóstico, propor alternativas de solução para nossas mazelas e trabalhou por isso.

Patriotas são os cientistas e pensadores brasileiros empenhados em criar soluções para a desgraceira que o Covid trouxe – na saúde, na economia.

Não misturo futebol com política!

Pois deveria.

A coisa anda tão feia por aqui justamente porque você não se deu conta do que a política pode fazer com a sua vida. Dentro e fora de campo.

 

PS.: Muito pior do que a torcida de brasileiros pela Seleção da Argentina foi a variante B 1.2.16, colombiana, que a Copa América deixou aqui como patriótica lembrança do desacerto que foi sua realização.

 

Tânia Fusco é jornalista 

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