Fundamentalistas americanos (por André Gustavo Stumpf)

A guerra é a negação da política. Bombas não substituem diplomatas. O comportamento de Trump é de um dirigente ensandecido

atualizado

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Kevin Dietsch/Getty Images
Netanyahu Trump
1 de 1 Netanyahu Trump - Foto: Kevin Dietsch/Getty Images

Fiz meu mestrado na School of Advanced International Studies – SAIS – em Washington, Estados Unidos, anos oitenta. Período muito fértil na vida acadêmica. Estudei muito, conversei bastante, frequentei palestras e cheguei a falar para alunos e professores sobre Brasil e suas circunstâncias, porque o país atravessava a imensa dificuldade ocasionada pela doença e morte de Tancredo Neves, depois de ele ter sido eleito Presidente da República. Fiz palestra no CLAIS – Centro de estudos latino-americanos e ibéricos – em Harvard, sobre o cenário político brasileiro da época.

Recordo este período da minha vida porque estive mais perto da sociedade norte-americana. Até hoje mantenho amigos lá. Alguns se aposentaram, outros seguiram carreira no serviço público ou na esfera privada. Mas havia grande preocupação dentre os professores e alunos de manter vivas as ideias básicas do chamado american way of life. A democracia e o livre comércio eram símbolos do que se pretendia para um país livre. Nada parecido com o que se vê hoje em Washington. Esta extrema direita que assumiu o poder, raivosa, sem limites, é uma novidade. A confusão entre política e religião fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da força e da negação da diplomacia. Trump fez a guerra contra o Irã sem motivos, nem objetivos definidos. Agiu para se adiantar a Israel, país que se autoconcedeu o direito de matar seus vizinhos.

Israel é assunto europeu que se transferiu para o Oriente Médio. Os judeus foram muito perseguidos por Hitler na Alemanha e em todo leste europeu. A Haganah, antecessora do Mossad, organizou levas de judeus que fugiram da Europa para a Palestina, administrada pelos ingleses. Estes foram os primeiros terroristas da época em que todas as religiões conviviam em paz naquela região. Eles sabotaram os esforços pelo entendimento pacífico até que os britânicos se retirassem do comando. Assim surgiu Israel, que na origem era um país socialista, baseado nas fazendas coletivas, os kibutzim. Nada parecido com o atual do estado judeu que ataca e mata seus vizinhos segundo seus próprios critérios. Além disso, tomou posse da área definida pela Nações Unidas para a criação do estado palestino.

A guerra é a negação da política. Bombas não substituem diplomatas. O comportamento do presidente dos Estados Unidos é o de um dirigente ensandecido. Ele não considera dificuldades, nem vantagens comparativas. Envia as tropas sem saber motivo ou razão. Bombardeou o Irã e não tomou as cautelas elementares. Ficou surpreso com a capacidade de resistência do país que respondeu atacando as bases norte-americanas na região e fechando o trânsito de navios no estreito de Hormuz. Os americanos não conseguiram defender seus aliados. E penalizaram o mundo inteiro com o aumento do custo do petróleo, que pesou inclusive no bolso do consumidor norte-americano. Tudo errado. Restaram os discursos furiosos, irados, recheados de palavrões, que recordam o denso palavreado da era nazista na Alemanha. É uma tragédia norte-americana.

A Pérsia foi um dos maiores e mais importantes impérios da Antiguidade, localizado na região do atual Irã e áreas vizinhas. Existiu em diferentes fases, a mais famosa é do Império Aquemênida, que surgiu por volta de 550 a.C. O império começou com Ciro, o Grande, que unificou os povos persas e conquistou territórios vizinhos, como a Lídia e a Babilônia. No seu auge, foi gigantesco, abrangendo o Egito, no norte da África, até partes da Índia, o Oriente Médio, Mesopotâmia e territórios na Ásia Central.

Henry Kissinger lembra, em seus escritos, que após o fim da Segunda Guerra Mundial os melhores líderes políticos do Ocidente se organizaram para construir um mundo mais seguro. A Alemanha se reunificou, a Europa procurou o caminho da União e criou a moeda única, o euro. O apartheid foi extinto na África do Sul, os países do leste europeu encontraram o caminho da liberdade, as colônias mantidas pelos europeus na África e na Ásia encontraram sua independência. Só o conflito na Palestina remanesce até hoje sem solução. Árabes e judeus brigam e o mundo é refém do conflito.

O Império Persa era tolerante com culturas e religiões dos povos conquistados. Detalhe interessante é que bombardeio de Israel destruiu uma sinagoga em Teerã. Há judeus na antiga Pérsia. As coisas são mais complexas do que supõem os adolescentes de várias idades que tomaram o poder em Washington. Há boas livrarias na capital dos Estados Unidos. Eles podem se dar ao trabalho de estudar um pouco a história e a política internacionais. Previne o governo de futuros vexames semelhantes ao atual.

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