Fugir de Cila e cair em Caríbdis (por Otávio Santana do Rêgo Barros)
O horror de brasileiros famintos assumiu-se como retrato asqueroso de uma coletividade indigna de ser chamada civilizada
atualizado
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Após a destruição de Tróia, Ulisses, o herói grego retratado por Homero em seu poema épico Odisseia, levou anos para retornar a Ítaca, sua terra natal.
Nessa epopeia, peregrinou por cidades desconhecidas e velejou sobre mares ameaçadores. Submeteu-se a deuses e impôs-se a homens.
Um dos desafios por ele enfrentado foi a travessia do Estreito de Messina, onde dois grandes perigos para a navegação furtavam vidas aos destemidos: de um lado estava Cila, um rochedo afiado como navalha e do outro Caríbdis, um poderoso redemoinho a sugar navios.
Ao longo de minha carreira militar, desafios se apresentaram pelo percurso. Na caminhada, deparei-me com o sentido verdadeiro da (in)dignidade humana.
Uma das vezes, quando comandei o Batalhão de Força de Paz no Haiti, meses após o terremoto que ceifou a vida de quase 300.000 pessoas.
Lá existe uma favela paupérrima chamada Cité Soleil. Para adentrarmos a área, tínhamos que caminhar por cima de lixo e fezes humanas entulhados e pisoteados por anos.
A população, sob aquelas condições, acostumou-se com o sofrimento social, econômico, político e sanitário, não se apercebendo da indignidade à qual era submetida. Cortava-nos o coração e desalentava a tropa.
Quando general, comandei a Força de Pacificação ARCANJO, nos Complexos do Alemão e da Penha, localizados na cidade “quase” maravilhosa.
Abaixo da Serra da Misericórdia, movimento topográfico que separa os dois bairros, havia um valão cheio de lixo e fezes humanas, onde pessoas e animais buscavam a sua sobrevivência.
Cunhou-se a frase: o Haiti também é aqui. Hoje, não sei as condições daquela região. Espero em Deus que o valão da hipocrisia – o do ver sem enxergar – ao menos lá tenha desaparecido.
Dez anos após, os haitianos que imigraram para o Brasil, em consequência do terremoto, se arriscam em travessias perigosas, guiados por coiotes inescrupulosos, na tentativa de adentrar os Estados Unidos, acalentando o sonho de um novo eldorado.
O que os teria levado a mais este êxodo? Secou a segurança alimentar digna, a se conquistar por meio de trabalho honesto? Claro que sim. Os índices de desemprego no Brasil beiram a casa dos 14.000.000 de homens e mulheres sem uma renda formal para subsistirem. Os haitianos não seriam poupados.
Na semana passada, chocou-nos uma imagem, dantesca sob todos os aspectos, mostrando a distribuição de carcaças de ossos, alijados por inservíveis, sendo usadas para mitigar famélicos. O horror assumiu-se como retrato asqueroso de uma coletividade indigna de ser chamada civilizada.
Nós temos a responsabilidade intransferível de impedir que isso se torne rotina. Que se normalize aos nossos olhos. Que se tornem aceitáveis pisotear dejetos para batear restos de comida.
É preciso ser irritantemente insistente e bater na tecla à exaustão. Falta-nos, como país, planejamento político e estratégico. Falta-nos sensibilidade social. A assim permanecer, continuaremos a ser o país do futuro, a gastar nossas potencialidades no presente.
Ulisses viveu o dilema. Fugir de Cila e cair em Caríbdis. Fugir de Caríbdis e cair em Cila. Arremeteu entre o rochedo e o redemoinho, superando o desafio que se lhe apresentava.
O que nós vemos na política brasileira – não sendo de agora – é um dilema similar ao enfrentado pelo herói grego: Cila ou Caríbdis. Ou se cai na corrupção ou se cai na loucura, não sendo elas excludentes.
A feiticeira Circe aconselhou Ulisses a evitar Caríbdis e passar tão rápido quanto possível por Cila, porquanto “apenas” devorava marujos. Ele fez ouvidos moucos.
Há de existir uma opção de liderança que trabalhe de fato, que seja inspiradora, que possa ter emoção com razão, que seja humilde para ouvir e sábia para falar.
Qual o sentido de querer o poder, senão provê-lo com a dignidade de exercê-lo para servir? Uma cité soleil, um valão da hipocrisia ou carcaças de ossos são inaceitáveis.
Diante desse quadro político-eleitoral, sustentado em uma divisão maniqueísta que apenas interessa ao rochedo ou ao redemoinho, o cidadão precisará definir a rota que o livrará desses pesadelos. Por certo encontrarão uma feiticeira Circe a indicar o caminho do mal menor.
“Uma escolha do que se julga ‘um mal menor’ é ainda uma escolha simplesmente de um mal (Hannah Arendt). Vençam as tentações do imobilismo. Persigam a racionalidade com emoção e aportem com segurança em Ítaca. O leme está consigo.
Paz e Bem!
Otávio Santana do Rêgo Barros . General de Divisão R1


