Flávio foi ao banheiro? (por Pedro Rogério Moreira)

O Flávio Bolsonaro pode até ter ficado mesmo uma hora e meia na Casa Branca. Mas não foi no Salão Oval

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Reprodução/Redes Sociais
Flávio Bolsonaro na Casa Branca
1 de 1 Flávio Bolsonaro na Casa Branca - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Esse encontro do Flávio Bolsonaro com Trump me faz recordar um tempo risonho e franco na vida de um repórter que cobriu a Presidência da República no governo do general Figueiredo (1979-1985).

O presidente estava enroladíssimo com os candidatos à sua sucessão: tinha antipatia ao Maluf e acolhia as resistências de seus amigos militares ao nome do coronel Andreazza, ministro dos Transportes, por este não possuir as quatro estrelas necessárias.

No fundo, gostava da ideia lançada sagazmente pelo Brizola da prorrogação do mandato presidencial, para que coincidisse com o final do seu próprio mandato de governador do Rio de Janeiro. Brizola estava doido para terçar armas com Tancredo.

Para empurrar com a barriga, Figueiredo anunciou que ia “ouvir a bancada” do partido governista. E de fato passou a receber deputados. Isso durou uns quinze dias, depois ele cansou da encenação.

Geralmente, eram deputados do baixo clero. Alguns deles, para se autopromover, diziam aos repórteres que a audiência fora longa, conversa animada. Até que o repórter Arthur “Cabeça Feita” Pereira, do Jornal do Brasil, desconfiou dessas “audiências demoradas”.

E numa tarde Artur se escondeu no mezanino do segundo andar do Palácio e descobriu a artimanha dos deputados.

Figueiredo, que não tinha paciência para lengalengas, despachava o interlocutor depois de dez minutos de prosa. E o deputado saía do gabinete presidencial e se enfurnava no toalete existente no corredor. Fumava, penteava o cabelo, usava o vaso sanitário e até batia papo com o garçom que empurrava o carrinho do café. Depois, aprumado, tomava o elevador e deitava falação aos repórteres no térreo, gabando o tempo longo que o presidente lhe concedera. O Flávio Bolsonaro pode até ter ficado mesmo uma hora e meia na Casa Branca. Mas não foi no Salão Oval.

Deve ter sido recebido por um assessor depois de aguardar uns bons dez minutos na ante-sala. Ali ficou uns trinta minutos para arengar sobre a ideia de considerar o PCC como terrorismo.

O assessor-aspone o levou depois para a sala do assessor que cuida de assuntos latino-americanos. Mais vinte minutos ali no papo furado.

Em seguida, Flávio foi levado para a sala do chefe de gabinete do Trump, onde ficou sabendo que o presidente, atarefado com a guerra do Irã, o receberia para a tão aguardada foto.

Tirado o retrato, Trump nem se levantou da mesa.   Flávio fez o caminho de volta: sala do chefe de gabinete, sala do assistente para a Latino-américa, sala do assessor, elevador. Não sei se passou no banheiro.

O curioso é que Flávio Bolsonaro se fazia acompanhar do neto do general Figueiredo, aquele que em 1984 era engabelado pelos deputados do baixo clero, que por sua vez eram engabelados pelo general-presidente…

Pedro Rogério Moreira é jornalista

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