Filhos, filhos? Melhor não tê-los… (por Gustavo Krause)

“Mas se não os temos/Como de sabê-los”?

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mulher mao amputada apos parto rio de janeiro - Metrópoles
1 de 1 mulher mao amputada apos parto rio de janeiro - Metrópoles - Foto: Reprodução/TV Globo

“Mas se não os temos/Como de sabê-los”? Assim, Vinicius de Moraes inicia “O poema enjoadinho”, uma saborosa dúvida poética que explora a experiência da procriação. Com graça, humor sutil, delicada ironia ao confrontar, de um lado o amor incondicional dos pais; de outro, as dificuldades triviais da “aporrinhação”, largamente recompensada pela “macieza nos seus cabelos”, “cheiro morno/Na sua carne” e “o gosto doce/Na sua boca”. O poetinha assume, ao final, a certeza de que os filhos são coisas “lindas e loucas”.

Ao revisitar Vinicius, passei a desconfiar que a “dúvida poética” vem, ao longo do tempo, se transformando numa “dúvida pragmática”, existêncial, diante do mundo submetido a um processo vertiginoso de mudanças, dificuldades e, sobretudo, um mínimo de previsibilidade sobre o futuro da humanidade.

Diante do choque de realidade, a visão prospectiva confere primazia ao realismo traumático ou a um pessimismo devastador das profecias escatológicas, reforçadas por Thomas Malthus (1766-1834), com a obra Ensaios sobre a população, iluminista britânico, economista, matemático que introduziu a demografia na dinâmica econômica ao afirmar que os meios de subsistência cresciam em progressão aritmética e a população em progressão geométrica o que, sem limites rígidos de reprodução, seríamos tragados por uma fome apocalíptica.

Deixe estar que Malthus não usou o jargão latino largamente mencionado pelos economistas, por segurança, diante de prognósticos: coeteris paribus (todo o mais é constante). Com os benefícios econômicos e os avanços científicos, ocorreu a convergência da queda mortalidade (longevidade) e uma redução expressiva da taxa de natalidade: a população do Planeta que saltara, em cem anos, de dois para oito bilhões de habitantes, inverteu a tendência ao registrar, em 1960 a taxa de fertilidade (número de nascimento por mulher) que estava em 4,7 caiu para 2,3 em 2021 e 1,6 para os países de renda alta (abaixo da taxa de reposição que é de 2,1).

Estes números, além das consequências socioeconômicos, revelam os profundos efeitos de mudanças culturais, em especial, na questão de gênero. Ocorreu uma grande revolução protagonizada pelas mulheres que alteraram desde a nucleação familiar, o estilo de vida, e um movimento de libertação feminina, em curso, do modelo patriarcal, da opressão masculina, do tratamento limitado e prejudicial à mulher no espaço da vida profissional, tudo isso acrescido por uma “vocação natural” da maternidade para assegurar a reprodução da espécie.

Ora, as conquistas das mulheres são um notável avanço histórico que precisa ser entendido na sua complexidade: uma nova era, a economia da fertilidade cujo ponto de partida é o pacto conjugal que se perfaz, na prática, com pais participativos, incluídos a divisão de tarefas e um consenso muito sensível sobre a decisão de ter filhos.

Não é simples. Trata-se de uma decisão que envolve o exercício da plena autonomia individual e uma consciência afetiva sólida. Ter filhos é trabalhoso, um trabalho infindável e desafiador: ter e criar. Logo, é preciso entender o “não” da mulher.

(Parênteses, é admirável a trajetória da Presidente eleita do México, Claudia Sheinbaum, judia, mãe, ativista, política, Phd em Engenharia Ambiental, que aos sessenta e um anos, enfrentou todas as adversidades, impostas ao gênero feminino, e será a  primeira mulher a assumir, no dia primeiro de outubro, o governo do seu país).

Ao decidir pelo “sim”, as mulheres ultrapassam o significado da sublime maternidade. Hoje, grande parte da população feminina é pai e mãe; amparo emocional e fonte de provimentos reais. E quando decide ter filhos, mergulha no mais profundo dos afetos, que carregou nas entranhas, deu vida e costumo dizer: elas chegam a sentir a dor física e pressentir a mais remota ameaça ao sono da criança pequena.

Ouço com com muita atenção e acompanho com enorme interesse, os debates que envolvem questões cruciais da atualidade; as mais consistentes teorias, os mais articulados e bem-intencionados programas, projetos e políticas que prometem melhorar a qualidade de vida das pessoas. Não duvido. No entanto, somente acredito quando esta vida foi desejada (é melhor tê-los) e acolhida, diz o poeta, em “Noites de insônia/Cãs prematuras/Prantos convulsos”.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

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