Faria Limers entre fortunas e crimes (por Felipe Sampaio)

Ao que parece o empresariado nacional começa despertar para o que podemos chamar de ‘tragédia suficiente’.

atualizado

Compartilhar notícia

Foto: Sergio de Souza
faria lima 2
1 de 1 faria lima 2 - Foto: Foto: Sergio de Souza

Se o escritor francês Stendhal tivesse conhecido os inquilinos da Avenida Brigadeiro Faria Lima, ficaria até tentado a adaptar sua máxima “Por trás de toda grande fortuna existe um crime” ao sufoco pelo qual os nossos agentes financeiros estão passando ultimamente. A ideia aqui não é levantar suspeitas sobre a origem da riqueza dos Faria Limers. Pelo contrário, o alarme sobre a infiltração silenciosa do crime organizado nos negócios financeiros legais foi acionado pelos próprios operadores do mercado.

Stendhal (pseudônimo de Henri-Marie Beyle) viveu no século XIX, no embalo pós-Revolução Francesa. Portanto, nem poderia ter conhecido o coração financeiro da Paulicéia Desvairada. De um lado, porque na época o mercado financeiro brasileiro ainda engatinhava, não indo além do lactente Banco do Brasil e dos lactantes agiotas. De outro, porque Paulo Maluf sequer havia construído a Faria Lima.

A rigor, o pensador francês não se referia exatamente a alguma ilegalidade cometida pela elite europeia, mas sim à desigualdade social, vista pelos seus colegas iluministas como uma espécie de mãe de todos os crimes – efeito dos crimes dos ricos e causa dos crimes dos pobres. Se bem que, por esse ângulo, a Faria Lima nem poderia se eximir totalmente do pecado original do capitalismo (a pobreza alheia).

Contudo, no que diz respeito à criminalidade “aos olhos da lei”, os mercados brasileiros andam atentos aos alertas dos investidores estrangeiros quanto aos riscos de participação da facção paulista PCC no ecossistema econômico nacional: “as facções estão encontrando brechas na economia formal, ameaçando não apenas os ganhos de grandes empresas que atuam na legalidade, mas também a segurança do ambiente de negócios” (Folha de São Paulo, 28/06/25).

Ao que parece o empresariado nacional começa despertar para o que podemos chamar de ‘tragédia suficiente’. Aquele grau de ameaça que finalmente provoca alguma reação civilizatória por parte dos mais ricos – que comandam a política e a economia -, a exemplo da Nova York ianque dos anos 1970 e da Cali colombiana 20 anos depois, onde a construção civil era controlada pelas máfias.

O PCC está presente em 28 países, associando-se pacificamente com facções locais e penetrando em setores como o financeiro, o imobiliário, combustíveis ou o transporte público. Procura, assim, reduzir o custo dos confrontos com quadrilhas rivais e lavar dinheiro na economia formal sem chamar a atenção da Justiça.

O Índice Global da Paz 2025 (Institute of Economics & Peace) revela um Brasil no alarmante 130º lugar do ranking de países pacíficos. “Isso deveria mostrar aos governos que a paz traz benefícios econômicos substanciais” (Forbes, 20/06/25). Enquanto isso, aqui na Terra da Santa Cruz, os analistas do mercado financeiro já falam em “risco PCC” e em “ala business do PCC”. A atuação do crime organizado na economia já é tema de estudo até na bem-nascida faculdade paulistana INSPER e no centro de debates CCDP, habitado por ilustres como Armínio Fraga, Elena Landau, Edmar Bacha e Alexandre Schwartsman.

Stendhal ficaria confuso por aqui. Segundo o GAECO de São Paulo, já ocorre lavagem de dinheiro nas grandes fintechs legais, que nem sabem que estão contaminadas pelo dinheiro do crime. Na mesma reportagem da Folha, o Promotor Lincoln Gakiya afirma que “as facções estão constituindo empresas que não são de fachada e operam na economia formal mesmo”, vencendo até licitações públicas. Como dizia Riobaldo, em Grande Sertões Veredas, viver é muito perigoso… até para os Faria Limers.

 

Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas e 3º setor; foi empreendedor em mineração; dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; ex-diretor do sistema de estatísticas do Ministério da Justiça; foi secretário executivo de Segurança Urbana do Recife.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?