Falta ao Brasil um Plano Real da Segurança (por Hubert Alquéres)
Não há como normalizar indefinidamente uma realidade em que milhões de brasileiros vivem sob medo permanente
atualizado
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No início dos anos 1990, a hiperinflação já não era apenas um problema econômico. Transformara-se numa experiência coletiva, moldando hábitos, expectativas e a própria percepção de futuro dos brasileiros. A corrosão diária do poder de compra produzia insegurança permanente. O país parecia condenado à instabilidade.
Foi nesse ambiente que surgiu o Plano Real. Seu mérito não esteve apenas na criação de uma nova moeda, mas na construção de uma política de Estado baseada em articulação institucional, continuidade e credibilidade. O combate à inflação deixou de ser tratado como medida episódica de governo e passou a constituir um pacto nacional relativamente estável ao longo do tempo.
Três décadas depois, o Brasil convive com outro fenômeno que também deixou de ser apenas um problema setorial e passou a moldar profundamente a vida cotidiana dos brasileiros: a insegurança pública.
O medo hoje organiza a vida cotidiana dos brasileiros. Define trajetos, altera hábitos, reduz a convivência pública, estimula o isolamento social e fragmenta as cidades. Em muitos lugares do país, o vazio estatal foi ocupado pelo crime organizado, por facções ou por milícias que exercem controle territorial, econômico e social.
Assim como ocorreu com a inflação antes do Plano Real, a violência foi sendo naturalizada. O brasileiro acostumou-se a viver cercado por grades, câmeras, cercas elétricas, carros blindados e aplicativos de monitoramento. A adaptação cotidiana ao medo talvez seja uma das maiores derrotas silenciosas do Estado brasileiro.
O problema é que o país continua tratando segurança pública como uma sucessão de emergências episódicas, sem continuidade estratégica. A cada crise surgem novos programas, operações ou discursos de impacto. Mudam os governos, mudam os slogans, mas os resultados permanecem limitados.
Nesse período, sucessivos governos federais, inclusive os liderados pelo PT durante a maior parte das últimas duas décadas, não conseguiram construir uma política nacional de segurança pública com continuidade, coordenação e capacidade efetiva de enfrentamento das facções criminosas.
Parte da direita responde com soluções simplificadoras baseadas apenas no endurecimento penal ou na expansão do armamento. Parte da esquerda hesita em enfrentar o problema com clareza, frequentemente reduzindo a violência a suas causas sociais estruturais. Ambas as abordagens revelaram-se insuficientes.
Enquanto facções criminosas atuam em rede, o Estado brasileiro continua funcionando de maneira fragmentada. As organizações criminosas operam articuladamente nas fronteiras, no sistema financeiro ilegal, no tráfico internacional de drogas e armas e no controle territorial urbano. O país convive hoje com algo próximo de 45 mil homicídios por ano, enquanto o crime organizado movimenta cifras bilionárias e amplia sua presença em atividades econômicas legais. Boa parte dessas facções consolidou-se justamente dentro de presídios superlotados e incapazes de controle efetivo pelo Estado.
O aparato estatal, porém, segue marcado pela descoordenação entre União, estados e municípios, além da baixo alinhamento entre inteligência policial, sistema prisional e políticas urbanas.
A recente PEC da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal, tenta enfrentar esse problema ao ampliar mecanismos de integração nacional. O debate em torno da proposta, contudo, revela novamente a dificuldade brasileira de construir consensos mínimos sobre segurança pública como política de Estado.
Não se trata de defender centralização absoluta nem de ignorar competências federativas. O ponto crucial é outro: países que conseguiram reduzir de forma consistente seus índices de violência construíram sistemas nacionais integrados, baseados em inteligência, coordenação institucional e continuidade administrativa.
O exemplo de Medellín é frequentemente citado. A cidade colombiana não resolveu o problema da violência apenas com repressão policial. Houve retomada territorial pelo Estado, investimentos urbanos, integração social e presença permanente do poder público nas áreas mais vulneráveis. Não eliminou o crime, mas recuperou capacidade estatal e presença institucional.
O mesmo vale para experiências internacionais de combate às máfias e ao crime organizado. Nenhum país enfrentou organizações criminosas sofisticadas apenas com retórica política, voluntarismo ou ações espetaculares de curto prazo.
O Brasil parece ainda distante dessa compreensão. A polarização ideológica contaminou o debate sobre segurança pública. Em vez de formular uma estratégia nacional duradoura, o país oscila entre discursos maximalistas e paralisia institucional.
Há também um problema adicional: a crise de confiança no próprio Estado. Em muitas periferias urbanas, o cidadão convive simultaneamente com a ausência de serviços públicos, a precariedade urbana e a presença ostensiva do crime organizado. O Estado aparece de forma intermitente, entra por operações policiais, mas raramente permanece por meio de políticas públicas consistentes.
Sem reconstrução da capacidade estatal, não haverá solução duradoura. Segurança pública exige inteligência, integração entre os entes federativos, fortalecimento institucional, controle de fronteiras, reforma do sistema prisional e presença contínua do Estado nos territórios vulneráveis.
Nada disso produz resultados rápidos. O Plano Real também não foi improvisado nem surgiu de soluções mágicas. Exigiu diagnóstico correto, convergência política e continuidade.
Talvez falte ao Brasil compreender que segurança pública exige hoje o mesmo tipo de pacto nacional que um dia permitiu derrotar a hiperinflação. Ou o país constrói um “Plano Real da Segurança”, baseado em políticas de longo prazo e coordenação efetiva do Estado, ou continuará administrando o medo como parte rotineira da vida nacional.
Não há como normalizar indefinidamente uma realidade em que milhões de brasileiros vivem sob medo permanente. A naturalização da violência talvez seja, hoje, uma das formas mais profundas de fracasso coletivo do país.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.


