Esperar a chuva em tempos de seca (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

"Quando se turva a razão pela ganância do mandar, sofrem os súditos que aguardam o seu amo"

atualizado 20/10/2021 3:17

Dvulgação

Um encontro fortuito do duque e sua esposa com o Cavaleiro dos Leões, Dom Quixote de La Mancha, e seu fiel escudeiro, Sancho Pancha, nos campos verdes da romântica Espanha, nos leva a uma das mais sensíveis passagens do livro O ENGENHOSO FIDALGO DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, de Miguel de Cervantes.

O duque, de pronto, percebeu a ingenuidade coberta de simbolismo daquela dupla e os adota, em broma, como um nobilíssimo cavaleiro andante festejado por poetas e seu escudeiro extremado em lealdade, levando-os como hóspedes ao castelo de sua propriedade.

Entre as paredes de pedra do palácio ricamente adornado e suas campinas adjacentes se desenrolam muitas histórias que, embora pitorescas, considero atuais para meditação sobre o conduzir de nossa sociedade.

O duque, sabedor de uma promessa firmada por Dom Quixote de regalar Sancho Pancha com uma ilha para que esse desfrutasse da sublime arte de governar, afiança ao escudeiro que na manhã seguinte ele seria conduzido ao seu quinhão de terra.

Dom Quixote se põe ciente da decisão do nobre duque e solicita ao galardoado senhor quedar-se a sós com Sancho Pancha para aconselhá-lo na faina com dignidade e justiça.

As orientações do apaixonado por Dulcineia del Toboso são divididas em dois blocos de conselhos. Um que trata da alma e outro que observa o corpo do governante.

Dom Quixote felicita a boa sorte ao seu escudeiro dizendo-lhe:

– Uns subornam, incomodam, solicitam, antecipam-se, suplicam, insistem e não alcançam o que pretendem, mas aí chega outro e, sem saber como nem por quê, se acha com o cargo e o ofício que muitos outros pretenderam.

E completa o sábio cavaleiro sobre o imponderável:

– Digo-lhe isso tudo, Sancho, para que não atribuas a teus méritos a mercê recebida, mas que dês graças ao céu […] mas saiba, os ofícios e grandes cargos não são outra coisa que um oceano profundo de confusões.

Sobre a humildade ao fazer cargo, ofereceu Dom Quixote ao simplório serviçal:

– Deve voltar os olhos para quem és, procurando conhecer a ti mesmo, que é o conhecimento mais difícil que se pode imaginar […] envaideça-te mais de ser humilde virtuoso que pecador soberbo.

Versou Dom quixote sobre a empáfia:

– Nunca te guies por teus caprichos, coisa muito aceita entre os ignorantes que se acham perspicazes.

Ao tratar da sedução, lembrou o Cavaleiro da Triste Figura:

– Se alguma mulher formosa vier te pedir justiça, tira os olhos das lágrimas dela e teus ouvidos dos seus gemidos […] se não quiseres que tua razão se afogue em seu pranto e tua bondade em seus suspiros.

Até aqui são os conselhos da alma, vejamos os conselhos do corpo.

– Sancho, a primeira coisa que te digo é que sejas limpo e que cortes as unhas […] não andes com roupas desalinhadas e frouxas, é indício de espírito desmazelado.

Quanto aos hábitos mundanos:

– Não comas alhos nem cebolas para que não percebam pelo cheiro teu plebeísmo […] cuida-te, para não eructares diante de ninguém.

Ao falar em público:

– Anda devagar e fala com calma, mas não de maneira que pareça que escuta a ti mesmo, que toda afetação é má.

O portar-se diante dos súditos foi assim explanado:

– Quando montares a cavalo, não vás com um corpo jogado sobre o arção traseiro da sela […] nem vás tão frouxo que pareça que cavalgas em teu burro. Andar a cavalo torna uns cavaleiros, outros cavalariços.

Sobre o ler e escrever, a cultura dos governantes:

– Como parece mal nos governadores não saber ler nem escrever! Deves saber, Sancho, que um homem que não sabe ler das duas, uma: ou ele é filho de pais grosseiros, ou ele é tão mal que nem os bons costumes, nem a boa doutrina, puderam entrar na sua cabeça.

Muitas outras observações iluminou Dom Quixote nas reflexões ao seu escudeiro. Esses capítulos da famosa obra bem poderiam tornar-se manuais de conduta ou sobrevivência dos auscultadores de poder.

Quando se observa uma ânsia desmedida pela conquista da ilha prometida, quando se promete o que não se tem nos alforjes para manter esse trono, quando se turva a razão pela ganância do mandar, sofrem os súditos que aguardam o seu amo, ansiosos “como se espera chuva em tempos de seca”.

Sofremos nós!

Paz e bem!

Otávio Santana do Rêgo Barros. General de Divisão R1

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