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Esculhambação geral (por Mary Zaidan) 

Câmara dos Deputados faz vistas grossas aos crimes e protege seus fora da lei de estimação

atualizado

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Vinícius Schmidt/Metrópoles
Deputado Alexandre Ramagem (PL-PL), diretor-geral da PF na gestão Bolsonaro, ao lado do também deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP)
1 de 1 Deputado Alexandre Ramagem (PL-PL), diretor-geral da PF na gestão Bolsonaro, ao lado do também deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) - Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

Foragido desde setembro, dias antes de sua condenação a 16 anos e um mês pela trama golpista, o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) protagonizou uma fuga espetacular, provavelmente terrestre, pela Guiana, e de lá para Miami. Seus passaportes, tanto o comum quanto o diplomático, já estavam cancelados, mas ele não esbarrou em dificuldades para sair do Brasil, tampouco para entrar nos Estados Unidos. Tirou licença-saúde válida até 12 de dezembro, continua recebendo seu salário régio e ainda cobrou ressarcimento de gastos com gasolina. Nada que provoque espanto à esculhambação geral endossada e até estimulada pela Câmara dos Deputados, permissiva ao extremo com os seus fora da lei de estimação.

A camaradagem com o ex-chefe da Abin, cuja fuga foi elogiada pelo líder do PL Sóstenes Cavalcante (RJ), segue o padrão do Parlamento nos últimos anos. A deputada condenada Carla Zambelli (PL-SP), que aguarda extradição depois de ser detida na Itália, continua sem ter sua cassação analisada. Até outubro, ela ainda gozava dos 127 dias de licença médica, agora vencida. O mais provável é que só perca o mandato no ano que vem, por excesso de faltas.

Nem Chiquinho Brazão, preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, foi afastado pelos pares. Quase um ano depois da sua prisão, a cassação veio por “ausências não justificadas”.  A única deputada cassada na Comissão de Ética e no Plenário devido a um crime cometido foi Flordelis (PSD-RJ), que, curiosamente, perdeu o mandato antes de ser condenada pelo assassinato do marido.

A tática de protelar e só cassar por faltas também deverá ser utilizada para o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), auto-exilado nos Estados Unidos desde o Carnaval. Ao contrário dos demais colegas, o zero três irrita até mesmo aliados com a insistência em métodos suicidas, como o esforço pela taxação de produtos brasileiros e sanções a ministros do STF impostas por Donald Trump. Mas como ninguém quer cutucar o clã, o melhor é deixar o tempo passar com o contribuinte pagando a conta – dele e dos funcionários de gabinete.

Como parte dos disparates de cada dia, Eduardo registrou sua posição a favor da derrubada dos vetos do presidente Lula à Lei Ambiental, restaurando o absurdo PL da Devastação. Mesmo com voto anulado ao final, é inconcebível que o canal online de votação dele continue aberto. Ainda que seja piada pronta com o apelido do deputado, a lambança é típica de república de bananas.

Seria injusto apontar o Parlamento como o único protagonista da avacalhação total. Nem a Polícia Federal sai ilesa. Desconfia-se até que alguns de seus agentes tenham auxiliado a fuga de condenados que deveriam ter sido impedidos nas barreiras de fronteiras.

A favor da PF contam as diligentes investigações recentes contra fraudadores do sistema financeiro e de fintechs utilizadas por facções criminosas. Mas como se trata de um país kafkiano…

Depois de ser flagrado e preso no aeroporto de Guarulhos minutos antes da fuga, Daniel Vorcaro, dono do Master, foi solto na sexta-feira por “não representar ameaça à sociedade”. Como se os bilhões captados de forma ilícita não fossem suficientes para mantê-lo afastado das elites política e econômica que o acarinham, contatos de ouro que podem – e devem – ter influência em seu julgamento.

Na operação Refit, desencadeada na semana passada, redescobriu-se o que a PF já sabia: a mega-refinaria instalada no Rio não refinava uma gota de petróleo, só fingia fazê-lo. Maior devedor de impostos do país, o conglomerado sonegou mais de R$ 26 bilhões de estados e da União. Ricardo Magro, o dono, vive nababescamente nos Estados Unidos, por vezes financiando eventos com tops brasileiros, entre eles o presidente da Câmara Hugo Motta, que esqueceu na gaveta o projeto contra devedores contumazes de iniciativa do governo e já aprovado no Senado.

Seria injusto não apontar o Parlamento de hoje como um dos principais protagonistas do esculacho geral.

Nestes tempos, além do pior tipo de corporativismo e de compadrio, os interesses do país têm sido sempre subtraídos. Disfarçado no que seria uma legítima oposição ao governo de turno, o que se vê no Congresso Nacional é uma rinha nefasta, com consequências gravíssimas. Tudo a depor contra o Poder Legislativo, que deveria ser o coração da democracia.]

 

Mary Zaidan é jornalista 

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