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Entre hábitos e estrelas: o que nos move a cuidar do planeta

Tenho fama entre os amigos de hiperfocar em assuntos aleatórios, mergulhando por meses em leituras inesperadas

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Criança lavando as mãos
1 de 1 Criança lavando as mãos - Foto: Getty Images

Por Mariana Caminha

Entre os meus podcasts favoritos está The Drive, do médico americano Peter Attia. As entrevistas são, na maioria das vezes, profundas e bem específicas — já ouvi episódios que vão da saúde dos pés à resistência insulínica. Nada disso tem a ver diretamente com a minha realidade profissional: sou jornalista especializada em clima. Mas adoro aprender sobre saúde.

Na semana passada, escolhi um episódio com Charles Duhigg, autor do best-seller O Poder do Hábito. Foi uma conversa fascinante sobre ciência, psicologia, comportamento e tantas outras coisas que, ao final, lá estava eu comprando o livro.

Tenho fama entre os amigos de hiperfocar em assuntos aleatórios, mergulhando por meses em leituras inesperadas. Mas a verdade é que, de uma forma ou de outra, sempre encontro conexões entre esses temas e o meu trabalho — que, no fundo, consiste em influenciar, por meio da comunicação, diferentes tomadores de decisão para que a canalizem investimentos em soluções sustentáveis.

Na entrevista a Attia, Duhigg descreve o chamado loop do hábito: um ciclo formado por uma deixa, seguida da ação e, então, de uma recompensa. Ele citou um exemplo marcante: durante uma campanha de saúde pública, foi quase impossível convencer a população de um país a adotar o hábito de lavar as mãos apenas pelo benefício de evitar doenças. A mudança só aconteceu quando o argumento foi reformulado: “Lavar as mãos — e ensinar seus filhos a fazer o mesmo — fará de você um pai ou uma mãe melhor.” O hábito se consolidou quando o benefício abstrato deu lugar a uma recompensa moral, mais imediata e poderosa.

Foi então que me peguei pensando na dificuldade que nós, comunicadores, enfrentamos ao tentar engajar a opinião pública sobre a crise climática. Estaríamos insistindo demais no benefício — salvar o planeta, evitar catástrofes — e deixando de lado a recompensa, aquilo que realmente move as pessoas?

Alguns cientistas parecem mais próximos de acertar esse tom. Admiro profundamente os textos do astrofísico Marcelo Gleiser, vencedor do Prêmio Jabuti e autor de vários livros. Para ele, cuidar do planeta é cuidar de nós mesmos. É comovente ouvi-lo falar sobre o balé da natureza, sobre como nossa respiração dança com a respiração das plantas, ou sobre o fato de sermos feitos da poeira das estrelas.

Gleiser nos lembra que a nossa sobrevivência depende dessa conexão essencial com o planeta — e que cuidar dele não é um gesto de generosidade, mas de autodefesa. Um hábito vital que todos nós deveríamos cultivar.

 

Mariana Caminha é jornalista e especialista em estratégias de comunicação voltadas para crise climática e desenvolvimento sustentável.

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