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Entre a “mexicanização” e a “bukelização” do Brasil (Hubert Alquéres)

O Brasil vive entre dois abismos: o crime que corrói o Estado e o autoritarismo que promete restaurá-lo pela força.

atualizado

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GBERTO RAS/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo
Cerca de 2.500 agentes das policias civil e militar participam nesta terca-feira (28) da "Operacao Contencaoî nos complexos da Penha e do Alemao, Zona Norte do Rio, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados de prisao e 150 de busca e apreensao contra integrantes da faccao Comando Vermelho (CV). Ate o momento, 23 pessoas foram presas e 4 suspeitos mortos em confronto. Na imagem, os detidos na megaoperacao sao levados para a Cidade da Policia
1 de 1 Cerca de 2.500 agentes das policias civil e militar participam nesta terca-feira (28) da "Operacao Contencaoî nos complexos da Penha e do Alemao, Zona Norte do Rio, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados de prisao e 150 de busca e apreensao contra integrantes da faccao Comando Vermelho (CV). Ate o momento, 23 pessoas foram presas e 4 suspeitos mortos em confronto. Na imagem, os detidos na megaoperacao sao levados para a Cidade da Policia - Foto: GBERTO RAS/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo

A ação no Complexo da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortes, revelou o ponto a que o Brasil chegou em sua crise de segurança pública. A operação foi aprovada pela maioria da população — especialmente os que vivem em áreas nas quais o crime organizado explora as pessoas, viola direitos humanos e instala sua ditadura por meio da violência. Vinte e oito milhões de brasileiros — 19% da população — vivem nesta situação, à margem do Estado Democrático de Direito.

Em quatro pesquisas — Datafolha, Atlas/Sintel, Paraná Pesquisas e Genial/Quaest —, a sociedade manifestou um recado claro: acuada e descrente, parece disposta a aceitar qualquer resposta, mesmo quando assume a forma perigosa de uma ‘licença para matar’. O episódio vai além da tragédia: é um sintoma do colapso de confiança nas instituições e da exaustão de um país que já não acredita na capacidade do Estado de garantir o monopólio da força e da lei.

No final da primeira década deste século, especialistas já alertavam para o risco da “mexicanização do Brasil”, expressão usada para descrever a expansão territorial e social do crime organizado até o ponto em que o Estado perde o controle de partes de seu território. À época, a retomada do Complexo do Alemão, em 2010, parecia inaugurar uma política de recuperação das áreas dominadas pelo narcotráfico. Era como se o país houvesse finalmente despertado para o problema e se dispusesse a enfrentá-lo com inteligência, integração e presença permanente do Estado. Ledo engano.

Aquelas operações produziram mais espuma do que transformação real. O Estado recuou, e as facções voltaram. Virou rotina: o Estado faz operações espetaculares, ocupa comunidades, mas não leva serviços e logo se retira — com o narcotráfico voltando a ter o controle.

De lá para cá, o problema apenas se agravou. O crime organizado, que há trinta anos tinha no “dono do morro” um personagem de liderança local — às vezes legitimado pela comunidade e até visto com certo fascínio por parte da classe média —, transformou-se em uma estrutura empresarial e militarizada, com alto poder bélico. O narcotráfico tornou-se um sistema de poder autônomo, que explora e subjuga a população, controla rotas internacionais e movimenta cifras bilionárias. O que antes era uma questão de segurança pública tornou-se também um problema de soberania nacional.

O governo federal ainda não possui uma estratégia capaz de combinar inteligência, rastreamento financeiro e presença social. Falta um projeto integrado de Estado — não de governo — que una o uso racional da força à presença constante de serviços públicos, cultura, educação e emprego nos territórios hoje dominados pelo crime. Sem isso, as operações se tornam ações pontuais, de efeito midiático e curto prazo, incapazes de transformar estruturalmente a realidade. A ausência dessa política de longo alcance alimenta tanto o avanço das facções quanto o sentimento popular de desamparo.

É verdade que também contribuiu para essa expansão uma certa permissividade e uma visão idílica do combate ao crime organizado, visto exclusivamente como uma “questão social”. Na ótica de certos setores progressistas, a repressão e o enfrentamento representam uma ameaça aos direitos humanos. Na outra ponta, setores clamam por ações ao arrepio do Estado Democrático de Direito, pregando que “bandido bom é bandido morto”.

A esse cenário soma-se a disputa eleitoral do ano que vem. Em vez de uma discussão séria e estratégica sobre segurança e soberania, o tema está sendo instrumentalizado por interesses políticos. De um lado, parte da oposição explora o medo e a insegurança como combustível eleitoral. De outro, o governo hesita em adotar uma política firme de enfrentamento para não ser acusado de autoritarismo e preservar sua base à esquerda. O resultado é um impasse em que o pragmatismo cede lugar à retórica, e o país se afunda em uma espiral de violência e descrédito.

Essa paralisia institucional e política abre espaço para outro fenômeno inquietante, que o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tornou-se o símbolo: um populismo autoritário que combina tecnologia, comunicação direta com as massas e uma promessa sedutora de ordem rápida — ainda que à custa das liberdades democráticas. O exemplo salvadorenho exerce fascínio em amplos setores da população latino-americana, especialmente onde o Estado falhou em oferecer segurança e justiça.

O Brasil começa a flertar com essa tentação. O apoio expressivo à operação do Alemão e da Penha indica que cresce o sentimento de que a democracia é incapaz de oferecer segurança. Quando o medo se torna o principal motor da política, o terreno está preparado para líderes que prometem resultados sem mediações, sem tribunais, sem debate público. Se o Estado não der uma resposta satisfatória no curto prazo, estarão abertas as portas para que um populismo autoritário, à la Bukele, se apresente como opção competitiva na próxima disputa presidencial.

O país se encontra, assim, entre dois abismos: de um lado, a “mexicanização”, com o avanço das facções sobre o território e as instituições; de outro, a “bukelização”, com o avanço do autoritarismo legitimado pelo desespero social. Um leva à erosão do Estado; o outro, à sua deformação. Ambos significam a derrota da República e da democracia.

A única saída possível é reconstruir a presença do Estado dentro da legalidade democrática — o que exige planejamento, coordenação federativa, políticas sociais duradouras e reforma das forças de segurança. É preciso sufocar financeiramente as facções, fortalecer a inteligência policial, articular políticas de juventude e oportunidades e, sobretudo, restabelecer a confiança da população nas instituições. É imperativo também usar o poder coercitivo do aparato repressivo do Estado para resgatar os territórios hoje nas mãos dos dois grandes oligopólios do crime organizado: o PCC e o Comando Vermelho.

O episódio do Rio de Janeiro deve servir como um alerta final. Ele mostra até onde a sociedade brasileira está disposta a ir quando o medo supera a esperança. Mas também mostra que ainda há tempo para evitar o colapso. O Brasil não pode ficar prisioneiro entre a barbárie de um Estado capturado pelo crime e a tentação de um Estado autoritário que promete ordem à força. Entre os dois, há a via republicana — que combina autoridade e legalidade, força e lei.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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