
Em nome de Deus (por André Gustavo Stumpf)
Curiosamente, o estado de Israel não guarda nenhuma semelhança com o que os religiosos professam

Política e religião não se combinam. É difícil governar com base em conceitos religiosos. Desde os antigos até os dias de hoje a confusão é séria. Jesus Cristo, o homem chamado filho de Deus, foi um essênio que viveu na Galileia entre 6 e 4 a.C e 30-33 d.C. numa tribo isolada no deserto de onde saiu para pregar o arrependimento, a justiça e amor ao próximo. Sua pregação ocorreu em território dominado por Roma. O homem forte na região, Pôncio Pilates, não gostou do que ouviu, sobretudo porque o profeta era visto pelos seus seguidores como um Rei. Dois reis não convivem no mesmo pedaço. O dos Cristãos morreu na cruz.
Mas seus conceitos sobreviveram por mais de vinte séculos com ampla discussão através de entidades religiosas. A descoberta do Brasil foi obra da Igreja Católica. É uma história bonita e complicada. A ordem dos Templários, que protegia os peregrinos no caminho de Jerusalém, ganhou muito dinheiro com o sistema financeiro que criou. Ela financiava as excursões e protegia seus integrantes. A Ordem ficou rica. Tão rica, que um dos principais devedores foi o Rei de França, Filipe IV. Diante da dívida, o soberano francês escolheu o caminho mais curto: ao invés de pagar, extinguiu a ordem, torturou e executou seus dirigentes. O chefe supremo da Ordem, Jacques de Molay, morreu na fogueira. Mas o dinheiro dos templários sumiu.
O dinheiro apareceu, séculos depois, em Portugal, na Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que tinha as características militares dos Templários. O Infante D. Henrique, português que organizou as grandes navegações, vivia como um templário: asceta e isolado. Suas caravelas, inclusive as da frota de Pedro Álvares Cabral que aportou na Bahia, ostentavam a famosa Cruz de Cristo, símbolo dos Templários. E os primeiros europeus brancos que chegaram ao novo continente eram presidiários ou judeus convertidos, ou seja, grupo de cristãos novos. A colonização do Brasil foi realizada, basicamente, por jesuítas que se espalharam de norte a sul. Portugueses faziam negócios. Os padres catequizavam índios e negros.
Até hoje existem as festas do Divino no interior do Brasil. Elas representam a vitória dos cristãos contra os mouros, ou seja, árabes, que foram expulsos da península ibérica. O Brasil é filho dos rigores da Igreja Católica. A Inquisição enviou quatro visitações para punir infiéis na colônia tropical. As punições ocorreram em Lisboa, onde muita gente morreu na fogueira. Só para efeito de comparação, a colonização dos Estados Unidos, por pioneiros ingleses, é fenômeno reverso. O país é consequência histórica da contrarreforma, ou seja do protestantismo de Martinho Lutero. Os pioneiros fugiram dos rigores da igreja católica na Europa, o que favoreceu o surgimento de várias denominações religiosas na nação do norte.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNo século 18, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, descobriu que para bem governar Portugal era necessário evitar os religiosos. Expulsou os jesuítas de todas as colônias e extinguiu a ordem religiosa, que só ressurgiu muito tempo depois. Ele dividiu o Brasil em duas colônias. A do Grão Pará e Maranhão (onde ele colocou seu irmão para governar) falava diretamente com Lisboa. A colônia do Brasil, do Nordeste para o Sul, se relacionava através da capital, Salvador. O conflito Igreja versus Estado é recorrente na história do Brasil. No Brasil independente, ao tempo do Império, o governo brasileiro era formalmente católico, mas permitia que outras religiões existissem desde que em prédios discretos, sem qualquer publicidade.
Hoje os adeptos das religiões pentecostais clamam pelo segundo advento do Senhor Jesus nas mesmas áreas que ele frequentou séculos atrás. Isto explica a referência a Israel nos comícios políticos no Brasil. Curiosamente, o estado de Israel não guarda nenhuma semelhança com o que os religiosos professam. Lá o aborto é permitido, a mulher é livre e serve no Exército, em todas as funções disponíveis. A crise em torno da Nossa Senhora, padroeira do. Brasil, que, supostamente, perderia este posto, só se explica pelas profundas raízes religiosas do brasileiro. Um pastor, tempos atrás, chutou a imagem da Santa. Esta agressão ficou gravada no inconsciente nacional. A menção de que a Santa perderia sua qualificação fez com que Lula ganhasse, com incrível rapidez, cinco pontos no tracking de sua campanha, de um dia para outro.
Nenhum dos candidatos apresentou projetos relevantes para o país. As denúncias lançadas contra o candidato de oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. Até a poderosa Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – divulgou nota oficial condenando a mistura de política e religião. O Brasil da República é laico, mas o brasileiro é religioso, graças a Deus. Bom voto.

