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Há uma pergunta relevante no universo do ataque à democracia: temos algo de novo no front? Os nossos inimigos — nosso, do povo que perde seu direito de governar — estão hoje num avanço histórico. O Our World in Data, da Universidade de Oxford, tem uma série de dados expressivos. Selecionei o período 2004-2024 — é o último ano recenseado, mas também onde o processo se afirma.
O número de países se tornando autocratas passou de 13 para 45; se democratizando, de 26 para 19. As autocracias fechadas passaram de 27 para 31; as autocracias eleitorais de 55 para 60; as democracias eleitorais de 53 para 59; e as democracias liberais de 41 para 29. Agora se segure, leitor: as pessoas vivendo nas autocracias fechadas passaram de 1,63 bi para 2,04 bi; em autocracias eleitorais, de 1,54 bi para 3,78 bi; as democracias eleitorais de 2,16 bi para 1,35 bi; as democracias liberais de 1, 12 bi para 0,96 bi. Creio que QED (quod erat demonstrandum), não há mais o que discutir. Uma coisa boa: estamos do lado dos números positivos, apesar — por causa — do Bozo.
Mas em 2024 Donald Trump ainda não tinha posto os Estados Unidos na categoria de autocracia eleitoral — quer dizer, vamos esperar até novembro para ver se farão eleições ou se ele vai conseguir chegar numa autocracia fechada. São, de qualquer modo, 0,33 bi de pessoas que mudaram para muito pior, a contagem dos bilionários que melhoraram de vida não tem relevância estatística.
Em termos de tirano, o velhaco não tem muita originalidade, embora tenhamos que reconhecer que, dado o tamanho dos EUA, ele bate alguns recordes. Talvez o maior deles seja o do tranco da transformação: conseguir avançar tão rapidamente — em pouco mais de um ano —, pulando casas, de uma categoria a outra já tinha acontecido, aliás muitas vezes, mas em países irrelevantes em termos de população e influência. Qualquer golpe de estado a la Bolsonaro bastaria, embora nós não sejamos considerados uma democracia liberal. Já o processo americano, embora tenha raízes plantadas por Bush e pelo próprio Trump, começou na campanha eleitoral, quando a Suprema Corte retirou o de cujus da categoria de cidadão americano e passou para a de deus.
Lembremos que, como tinha prometido, já no primeiro dia de governo agiu como ditador, fazendo uma tonelada de decretos tratorando as leis e a Constituição, dando um baita pontapé no que eles consideravam sua superioridade sobre o mundo, the rule of law, nosso Estado de Direito. Não sou ingênuo de achar que a lei era cumprida universalmente no país. Nem que lá, como cá, a justiça fosse aplicada igualmente para ricos e pobres, nem lá nem cá o eram ou é, sem falar, me repetindo, que em 10 vezes 9 o preso é preto, negro, nigger ou o que você quiser usar como expressão de preconceito racial. Mas ainda havia um certo controle ou pudor.
O símbolo maior do despudor é o da venda de indultos com suborno ostensivo e/ou escondido. O caso mais notável é o de Changpeng Zhao, dono do Binance, um criptobanco que fechou com a World Liberty Financial, da famiglia. O saque foi sobre uns 90 bilhões, que era o $$$ que o cara tinha. Mas o negócio de indultos atingiu todo tipo de pena, até prisão perpétua, e muita droga voltou às ruas.
Nas falcatruas declaradas, o NYT calcula que Trump já ganhou 1,4 bi, incalculando as incalculáveis. O número de contratos públicos manipulados cada vez aumenta mais, o que deve ter contribuído para a necessidade da subir o orçamento do Pentágono de 1 trilhão US$ para 1,5 tri — já imaginaram o que os nossos milicos fariam com 2,5 trilhões de reais? (é a diferença para falcatrua).
Mas vamos falar sério. Todo negócio de tarifas e apreensão de petróleo — notaram que eles esqueceram de bombardear os barquinhos venezuelanos? — é irrelevante diante dos ataques contra o mundo. Por exemplo as de interferência na justiça alheia: como na nossa, na francesa, na alemã e especialmente no Tribunal Penal Internacional, do qual, aliás, os EUA não fazem parte. A intenção, sempre, é favorecer os bandidos aliados, como o Bolsonaro, a Le Pen, os nazistas alemães, o Bibi Netanyahu etc. Ou, como candidato diário ao Nobel da Paz, o ataque ao Irã; o apoio total ao genocídio e à destruição de Gaza, para seu “conselho de paz” fazer uma “riviera dourada”, Deus os proteja; o ataque à Ucrânia, “eles invadiram a Rússia, têm que dar à famiglia as suas terras raras”; o ataque à Groelândia, isto é, à Islândia, “que que ela tinha que se chamar Iceland, qualquer um se confunde”, à Dinamarca, por viver beijando o chão onde eles pisavam, e à Noruega por não ter lhe dado o dito objeto de ouro; à Alemanha, por ter matado Hitler; à Inglaterra, por ter rei antes dos EUA; à França, porque sim; à Colômbia, porque não?; ao Brasil — você está cansado de saber porque.
Vamos combinar que o mais relevante é criar condições para que haja eleições lá neste novembro, e eleições com garantias (de que os maga ganharão): eles querem as listas de eleitores para poder prender os eleitores democratas, as urnas, a começar pelas da Georgia, para emprenhar, o medo pânico para desencorajar. Lançam o ICE e o CBP — a comparação com a Gestapo é injusta, os alemães mostravam a cara, mas em brutalidade talvez se igualem — no Minnesota, um welfare state, exigem “os terroristas somalis da Ilhan Omar” e, para cumprir as cotas do vampiro Stephen Miller, quem estiver pela frente é criminoso, podem matar como fizeram com a Renee Good e o Alex Pretti — mas a culpa é deles, ficaram na frente das balas…
Controlados os estados democratas, controlado o Congresso, falta apenas controlar os juízes que teimam em seguir a lei, alguns até indicados por Herr Trump, e para isso contam com a Suprema Corte do Robert: nenhuma decisão que não seja clara e limpamente inconstitucional.
Afinal, ainda tem uns pedaços do salão oval que não estão cobertos de ouro, mais bonito que Versailles — me dá um dinheiro aí!


