Efeitos da guerra no Brasil (por André Gustavo Stumpf)

Não há espaço para discussão de meios e métodos para alcançar resultados positivos e escapar do subdesenvolvimento persistente

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1 de 1 Imagem colorida de plataforma de perfuração de petróleo no Rio de Janeiro, Brasil - Metrópoles - Foto: Getty images

A renúncia de Carlos Massa, o Ratinho Júnior, de sua candidatura à Presidência da República pegou seus correligionários de surpresa. Alguns até se recusavam, no dia seguinte da decisão, a acreditar na veracidade da notícia. Tudo havia sido combinado, discutido e acertado, nos mínimos detalhes, nos últimos meses. Não havia dúvidas, mas a persistente oposição do pai, dono de poderoso conglomerado de empresas, entre elas o SBT no Paraná, mudou o rumo da conversa. Ratinho Júnior decidiu permanecer no cargo de governador até o final do mandato, tentar eleger seu sucessor, que ganhou concorrente de peso na pessoa de Sergio Moro, e assumir a presidência dos negócios do pai. Deixou a política para tratar de seus próprios interesses.

Relegou amigos e correligionários o sol e a chuva. Gilberto Kassab, presidente do PSD, terá que optar entre o goiano Ronaldo Caiado e o gaúcho Eduardo Leite. São perfis diferentes, com olhar diverso para a realidade nacional. Caiado vem de um período de governo bem-sucedido em Goiás, onde expandiu a economia, Goiânia hoje é capital do agronegócio, ultrapassou Brasília em termos de desenvolvimento, e garantiu a segurança da população. Leite é um administrador competente, com tinturas de esquerda moderado, capaz de dialogar bem com o centro democrático. É distante da extrema direita e do bolsonarismo.

O radicalismo substituiu a melhor política no país. Não há espaço para discussão de meios e métodos para alcançar resultados positivos e escapar do subdesenvolvimento persistente. A mais nova crise do petróleo, consequência das loucuras de Donald Trump, demonstra que o país continua preso à inexistência de antevisão para superar limites. Nos anos setenta ocorreu a primeira grande crise do petróleo, sempre consequência das guerras entre Israel e vizinhos. Naquela época o preço do barril de petróleo subiu de um para dez dólares. Aumento espetacular. No Brasil, o governo tentou de tudo para evitar a contaminação da economia com a elevação dos preços da gasolina e do óleo diesel.

Mas não há como evitar. Os aumentos chegam ao posto de gasolina e ao preço do pão.  O Brasil iniciou um processo de aumento da dívida externa para conseguir comprar petróleo e ao mesmo tempo tentou reduzir o consumo interno do produto. Chegou ao racionamento, a exemplo de alguns europeus que tomaram a mesma providência. Naquela época surgiu o programa do álcool. Desde então o álcool oscilou como principal combustível de automóveis no Brasil. Houve época em que ele sumiu dos postos. Hoje é comum, mas seu preço oscila junto com o da gasolina, o que é espantoso.

Os governos brasileiros não trabalham com planejamento, nem costumam se antecipar as crises. O país é sofrido em matéria de crise de combustível, apesar de hoje ser importante produtor de petróleo, o que não acontecia nos anos setenta. Mas o transporte de carga no país continua a ser realizado por caminhões, baseado no consumo do óleo diesel, subproduto do petróleo.

O governo Lula, no período entre 2023 e 2025, construiu 225 quilômetros de rodovias no país. Duplicou cerca de 180 quilômetros. A soma dos dois desforços resulta em aumento de 400 quilômetros, pouco para um país de dimensões continentais. No capítulo ferrovias, o desempenho do governo é lamentável. Ele retomou as obras da ferrovia chamada de Transnordestina, novela que se desenvolve nos últimos anos e não sai do lugar. Planejou e licitou grandes projetos, como a ferrovia Oeste-Leste, que terá um total de 1.527 quilômetros, mas continua a existir apenas no papel. Na realidade, não construiu um único quilômetro de ferrovia neste país, nos últimos anos. O transporte de carga continua a ser realizado majoritariamente por caminhões. O remédio, extremo e ineficaz, é criar subsídio para evitar que o aumento de preço chegue ao consumidor na véspera da eleição. Vai chegar por outro caminho quando a crise da dívida interna explodir. Preço é preço, não há como fugir dele.

O Brasil poderia ter, hoje, em funcionamento trens elétricos, caminhões elétricos, ônibus elétricos e carros elétricos (estes existem por força do planejamento dos chineses), mas nada disto existe – exceto os veículos – a não ser em caráter experimental. A negligência vai mais longe. Existe energia de sobra, tanto eólica, quanto solar. É tanta sobra que as empresas são obrigadas a desligar os geradores para não sobrecarregar as redes de transmissão. Na realidade, há menos redes de transmissão do que o necessário para carregar o enorme volume de energia gerado pelo sol e pelos ventos para todo o território nacional. O que realmente sobra no Brasil é incompetência, negligência, falta de planejamento e preguiça de realizar, além da onipresente corrupção. É mais fácil fazer o discurso do que fazer a obra. E haja subsídio para pagar o preço do combustível.

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