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Blog do Noblat - 22 anos

Duplo-pensar (por Pedro Costa)

Que amanhã não seja 1984

18/10/2026 09:00
Capa do livro 1984, de George Orwell
Duplo-pensar (por Pedro Costa)

Dizem por aí que George Orwell errou quando escreveu o Nineteen eighty-four, pois era uma distopia tão impossível quanto a Utopia de São Thomas More —lembremos que as palavras vêm de “lugar-ruim” e “lugar-que-não-é”. Infelizmente isso contraria a própria concepção do livro, escrito durante a 2ª Guerra, embora publicado em 1949. Para começar, o ano de 1984 não é, segundo a própria narrativa, a data dos acontecimentos. Para terminar — ah! como eu gostaria de discutir isso por algumas páginas —, a denúncia é intemporal, e, embora o velho combatente republicano da Guerra Civil espanhola tenha ficado com horror do stalinismo, ele dizia se referir expressamente a “comunismo e fascismo”: o que ele denuncia é o autoritarismo, é o que chamávamos, quando eu era jovem, Estado concentracionário, ideia influenciada pela Origem do totalitarismo de Hannah Arendt, quando ela tinha na cabeça os campos de concentração.

Esse enorme parágrafo é para dizer que, infelizmente, vemos ressurgir esses universos totalitários e o Big Brother está por (quase) toda parte. Não sei vocês, mas fico pasmo quando os meus pensamentos — eu sei, eu sei, “eles” ainda não leem pensamento, sou eu quem, sem saber, digo para “eles” o que estou pensando — são provocados com alguma coisa relacionada com o livro — de papel, é claro — que estou lendo. E olhem que não uso, pelo menos intencionalmente, IA. Mas há tantos outros controles de nossa vida que é difícil respirar. 1984 aparece todo dia, de uma maneira ou outra. Graças a Deus é o Amor, num sentido mais amplo do que o da “love story” de Winston e Julia, que pode nos salvar.

Nestes dias críticos para a existência da democracia no Brasil, lembro que a maior parte das influências e paradigmas dos bolsonaros e de seu candidato a ditador vem de idolatras do autoritarismo. Em dois extremos, o do grande irmão americano a quem pretende nos entregar e o do torturador de plantão em El Salvador, o modelo passa literalmente por campos de concentração: Trump os instalando por toda parte e os especializando, inclusive para a tortura de crianças, e Bukele transformando todo o país num único e monstruoso Auschwitz.

Deixem-me fazer uma citação de Orwell para que não fique dúvida. O doublethink (duplo-pensar) é “ter simultaneamente duas opiniões que se anulam, sabendo-as contraditórias e acreditando em ambas, usar lógica contra lógica, repudiar a moralidade enquanto a reivindica, acreditar que democracia era impossível e que o Partido era o guardião da democracia, esquecer sempre que era necessário esquecer, então tirar a coisa da memória no momento em que é necessária e logo esquecer novamente, e sobretudo, aplicar o mesmo processo para o próprio processo — esta a sutileza final: consciência para induzir inconsciência, e então, novamente, se tornar inconsciente do ato de hipnose que acabou de realizar. Mesmo para compreender a palavra — duplo-pensar — envolve usar o duplo-pensar.”

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Bem, eu sei que o sujeito seria incapaz de exprimir essa ideia, pois ideia é algo que lhe provoca dor quando, inesperadamente, acontece em sua cara de pau bem lustrada com óleo de peroba, mas vocês captaram a imagem desse sujeito que é capaz de, na mesma frase, dizer o sim e o não sem perder o (mal) rebolado. Flávio Bolsonaro é o ser abjeto que não apenas sonha com esse universo orwelliano mas que pode, se eleito, nos levar a ele.

Felizmente 1984 não é inevitável. A alternativa é infinitamente superior: o nosso pobre e confuso dia a dia do Brasil, em que o Presidente Lula tem que superar o interesse privado (repararam que o Bolsonaro 001 sempre alega relações privadas entre ele, senador publicano, e Vorcaro, assaltante público?) dos parlamentares para conseguir governar — e, apesar de tudo, conseguir tirar os brasileiros da fome e da extrema pobreza, reduzir o desmatamento e defender as terras indígenas e públicas, melhorar a educação, incrementar o SUS e mil e uma outras coisas que teve que ir buscar do fundo do poço onde o Bolsonaro 000 tinha lançado o País.

Somos, sem dúvida, uma democracia frágil. Mas, desde 1985, somos uma “democracia eleitoral”, progresso imenso para um país que nunca tinha chegado a ser democracia. Desses 41 anos os melhores foram os 12 em que fomos governados por Lula. Para sermos uma democracia completa, precisamos de algumas coisas que o Lula tenta realizar e que os Bolsonaros tentam evitar: melhor distribuição de renda; igualdade de oportunidades; atenção à saúde para todos, sem precisar ganhar uma fábula para ser tratado em bons hospitais; acesso à educação de qualidade também para todos; mesmas oportunidades para pretos e brancos, para mulheres e homens, para toda e qualquer minoria; saneamento básico, acesso a água, eletricidade, gás; preservação de nossos recursos naturais; apoio à ciência e à tecnologia etc. e tal.

O Brasil precisa reformar a estrutura de nosso sistema de segurança — temos o paradoxo de culpar a União pelas mazelas das polícias, mas hoje a responsabilidade pelo combate ao crime é essencialmente dos Estados (art. 144 § 6º CF)— para termos a polícia federal comandando o combate às grandes corporações criminosas, como PCC, CV, milícias, polícias estaduais (responsáveis por 20% dos assassinatos). É o que propõe Lula, a que se opõem os Bolsonaros. Eles querem mais armas e balas (o Jair pôs bilhões de balas nas ruas), o Lula o controle das armas, o povo não ser morto nem oprimido pelas armas. Isso passa também por tirarmos o transporte da função de lavanderia do crime (na mão dos cúmplices dos Bolsonaros) e o oferecermos público e gratuito aos trabalhadores (como quer Lula).

Na próxima semana as opções são claras: queremos o nosso progresso lento e gradual para a democracia de fato ou o mergulho rápido e súbito no autoritarismo?; queremos quem está dando os maiores tombos nas orcrim ou quem fez no Rio de Janeiro a integração da política com o crime organizado?; queremos os privilegiados no poder ou o povo no poder?; queremos o vigarista ou o homem de bem?; queremos ser colônia americana ou continuar um país soberano?; queremos a autocracia ou a democracia? Para o mal, se escolhe Bolsonaro; para o bem, se escolhe Lula.

Votar Lula é a única opção para evitar 1984!

Pedro Costa. Arquiteto e escritor.