Duas servidões voluntárias (por Pedro Costa)

O Estado é a única forma de fugir ao medo da morte. Nossa dependência desse Tirano vem daí

atualizado

Compartilhar notícia

Daniel Ferreira/Metrópoles
Mastro da Bandeira na Praça dos Três Poderes próximo ao Congresso nacional - Metrópoels
1 de 1 Mastro da Bandeira na Praça dos Três Poderes próximo ao Congresso nacional - Metrópoels - Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles

Em 1548, quando Étienne de la Boétie escreveu o Discours de la Servitude Volontaire, compreendera, aos 18 anos — ele viveria 33 — o que poucos haviam compreendido ou compreenderiam: que o homem tem o desejo inato da liberdade, mas, desde que surge o Estado-Tirano, muda de natureza e se submete à uma escravidão voluntária. Só muitos anos depois Thomas Hobbes explicou que o Estado é a única forma de fugir ao medo da morte. Nossa dependência desse Tirano, desse Um — o livro foi publicado clandestinamente como Le Contre-Un — nasce, portanto, do desejo de segurança.

A saída é simples e difícil: “estejam decididos a não servir mais e estareis livres” (“Soyez résolus à ne plus servir, et vous voilà libres.”) Na realidade, a única forma de resolver esta armadilha é que sejamos nós mesmos o Estado, na frágil forma de estrutura social que é a democracia, instituidora de um Estado de Direito que nos protege da latente tirania de qualquer forma de governo. É preciso que este seja, na forma lincolniana, do povo, pelo povo, para o povo.

Mas os candidatos a tirano existem a rodo, dos trumps aos bolsonaros, passando por multidões de lobos em pele de pastor. La Boétie avisava que o tirano usa de distrações e truques para seduzir o homem à servidão voluntária. Sem se dar conta, o homem paga para dar ao tirano os instrumentos de que é dependente. Instrumentos como o controle do pensamento — pela religião ou pelo populismo — e a força, o interesse imediato e, sempre, o medo.

Vemos as consequências da outra forma de servidão, a escravidão pela força bruta. Esquecemos os escravos da antiguidade, mas espero que lembremos o crime da escravização dos africanos — agora, no dia 25 de março, considerado pela ONU o maior que a humanidade cometeu — e como foi difícil acabar com a monstruosa máquina do mundo. Quando surge o abolicionismo no séc. XVIII, os tiranos/soberanos o adotam com pressa onde não é relevante — em 1761 Pombal fez para o Portugal continental a primeira abolição da escravatura de africanos —, mas mantêm como importante negócio o tráfico de escravizados para o resto do mundo.

Os dois casos paradigmáticos são o do Brasil e o dos Estados Unidos. Quando nos tornamos independentes José Bonifácio quis fazer uma “progressiva emancipação” e por isso foi banido da política brasileira. O tratado de 1826 com a Grã-Bretanha resultou na lei de 7 de novembro de 1831, que declarava livres “todos os escravos entrados nos portos do Brasil” — o que, combinado com o inciso I do artigo 6º da Constituição, “são cidadãos brasileiros os que no Brasil tiverem nascido quer sejam ingênuos ou libertos”, equivalia à abolição —, mas só prestou para quarenta anos depois a assembleia de Minas Gerais pedir que fosse revogada para os cidadãos não continuarem obrigados à desobediência. Tivemos duas leis “caridosas” — não nego que tenham feito o bem enquanto serviam para adiar a liberdade —: a dos sexagenários livrava os proprietários de responsabilidade com os poucos velhos que sobreviviam até os 60; e a do ventre livre permitiria haver escravizado até 1932. Da abolição (foram tornadas livres 723.419 pessoas) Nabuco avisava que seria um desastre se não fosse acompanhada de um profundo resgate social. Foi e é um desastre, que pagamos com uma das maiores desigualdades do mundo, com a mortandade de negros porque negros etc.

No caso dos norte-americanos os abolicionistas foram vistos no Norte com suspeição — quando não eram mortos como no Sul — até à guerra civil: vigoravam Black Codes, versões do Code Noir de Louis XIV, transplantado depois da derrota dos confederados para o Sul. Até os Civil Right Acts de 1964 e 1968, propostos por Kennedy e passados por Johnson como um compromisso com o morto, pouco diferia a vida dos negros nos EUA da que enfrentou Mandela na África do Sul: quem definia o que era a lei era a Ku Klux Klan. Hoje o ICE, mascarado, usa a mesma prática que as nossas polícias usam, desmascaradas: negro bom é negro morto.

Mas todos nós, negros e brancos, estamos sujeitos a duas outras servidões voluntárias: a do petróleo e a das redes sociais.

O Paul Krugman, há poucos dias, aqui mesmo no Substack, mostrava como para as petro-nações — autocracias dos EUA, da Rússia e do Oriente Médio — é conveniente o regime de guerras. É obvio que, para elas, o povo que se lixe. Para os tiranos que as dirigem, também pouco importa a certeza, que negam por conveniência, de que os combustíveis fósseis significam uma extinção de espécies de grande magnitude, a do Holoceno: embora se achem deuses, pensam que o fim virá acontecerá depois de sua morte, e pouco importa. É urgente e imprescindível nos livrarmos deste jugo, que nos levantemos em massa como se fossemos cidadãos de Minneapolis e derrubemos esse dragão da maldade.

Mas o fenômeno mais escandaloso é o das redes sociais. Conjugado com o crescimento das desigualdades e o culto da extrema riqueza, surgiram esses hiper-bilionários, mais poderosos que impérios, com absoluto controle sobre o pensamento, sobre a opinião, sobre a vida das pessoas em todo o mundo. Não nos enganemos sobre a nossa dependência dos musks, suckerbergs, bezos e pichais: mesmo os mais rebeldes de nós utilizamos um e outro dos equipamentos que, sob o poder de uma real facilidade em nossas vidas, controlam o que queremos e não queremos. Temos que navegar contra o vento das tempestades de fakenews, buscar a verdade, a simples verdade de que a Terra não é plana.

Precisamos exercer o que Dominique de Villepin chama de “poder de dizer não” (Le Pouvoir de dire non, lançado em junho do ano passado). Precisamos que líderes como Lula rejeitem esses caminhos, saindo da dependência dos combustíveis fósseis e impondo restrições fortes às redes sociais. Villepin tenta despertar na Europa uma geração de políticos que saiba agregar forças para, reforçando a União Europeia, ser capaz de enfrentar essas forças e romper a tri-polarização EUA–Rússia–China. Será possível?

Para nós resta, na nossa insignificância, usar o nosso poder de gota d’água que, somando-se a outras, vire torrente e lave nossa civilização. E lembrar que o Filho do Homem — pelo mistério que vive Maria —, depois de dizer “tenham coragem, eu venci o mundo”, deu a Sua vida para que movêssemos a nossa pelo mais revolucionário dos caminhos: o do Amor.

 

Pedro Costa. Arquiteto e escritor.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?