Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho.
atualizado
Compartilhar notícia

Moça escura – Tribuna da Imprensa — 7 /5/1953
A gente tem cada surpresa… Ainda agora lia distraído anúncios de emprego no Jornal do Brasil e me fixei na repetição desta condição para as moças que se apresentassem: boa aparência. Fiquei imaginando o vestido melhorzinho a ser posto, mas não tardou outro anúncio me esclareceu. Acrescentava: “não se faz questão de cor”. E mais outro: “moça escura…” A moça escura procurava trabalho. Não o acharia, porém, no escritório onde se acrescentava: “quem for de cor, é favor não aparecer”. Não seriam essas as palavras, era esse o pensamento. Fiquei pensando no tempo da guerra: não tinha lei contra o preconceito de cor, mas muito sofreu o ariano que fez uma ressalva idêntica. Pois agora, com lei e tudo, a moça diz logo que é escura (enquanto outra vaidosa alega ser “branca e de olhos azuis” certa da sedução que neste país sempre exerceram não só as donzelas, mas até o “mancebo louro”), e o escritório nem disfarça, como os mais, que não quer preto no eufemismo de “aparência”: fala claro.
Terá pelo menos essa virtude. Eu ando inclinado a acreditar que um dos piores defeitos do brasileiro é a educação e sua pior instituição política, remate dos males, é a sala de café nas duas casas do Congresso. Tudo se passa com delicadezas, cortesias, quando não cortesanices. As ideias mais agressivas perdem os contornos. Os homens mais agressivos amansam. Já ninguém pensa que o mundo vai acabar. Ninguém troca seu reino por um cavalo.
Se tivéssemos chegado a este ponto como flor da civilização, ainda bem. Mas essa flor de civilização, onde a encontro, as mais das vezes, é no povo, nos humildes que o são porque não têm ambição — nem planejam negócios.
Voltando ao caso dos pretos, raras vezes haverá exemplos de hipocrisia coletiva tão grande como essa, todos nós a afirmar que no Brasil não há preconceito de cor. E se metêssemos a mão na consciência lembrariamos da trova cruel do desafio do caboclo:
Negro num tem cueca
negro num tem chapéu
negro urubu num come
negro não vai pro céu.
Não sei se a teoria é razoável. Pelo menos nós, católicos, no fim da missa todo domingo estamos a ler no Evangelho de São João que a luz veio a todo homem neste mundo. O céu não distingue na cor. E não conheço caso de padre que recusasse casar preto com branco, como aquele juiz do Ceará, homem aliás ilustre e hoje ministro de uma alta corte, de quem li certa vez uma sentença com esta pomposa ementa: “Diferenciação étnica como impedimento matrimonial.” Fui ver, era a menina branca que fugira com o moço preto, ele recusava a fazer o casamento.
Tudo isso são coisas complicadas, e cheias de nuanças, de exceções, de sutilezas. E banhadas, afinal de contas, por esta grande, universal bondade brasileira. Moça escura, não receies da sorte, serás feliz. Já não estamos no tempo em que, de outra quadra anônima, se exalava este lamento de poeta escravizado:
Vou cantar uma cantiga
que meu senhor me mandou,
Se eu fosse forro, não ia,
Como sou escravo, vou.
Lamento que muito poeta no mundo há de estar, a esta hora, com outras palavras, repetindo.
Odylo Costa, filho


